sexta-feira, julho 03, 2009

Daniela Fonseca Entrevista Lázaro Barreto

Sobre

A D É L I A P R A D O


Pergunta: Há quantos anos o senhor conhece Adélia Prado?
Resposta: Desde 1967, ano em que começamos publicar o jornal AGORA Literário. Ela colaborava no jornal da Paróquia de Santo Antônio, de nossa cidade, e o Frei Mariano (OFM) recomendou-me contatá-la para publicar no nosso jornal, que tinha ampla distribuição no país e no estrangeiro, devido aos endereços de órgãos literários e de renomados escritores que conseguimos na redação do Suplemento Literário do Minas, então dirigido por nosso amigo Murilo Rubião.

Pergunta: Como é a sua relação com ela?
Resposta: de muita amizade e admiração intelectual, de minha parte. Seu “Poema Com Absorvências No Totalmente Perplexas de Guimarães Rosa”, que foi publicado logo no primeiro número do nosso AGORA mereceu a atenção do próprio Guimarães Rosa (então vivendo no estrangeiro, se não me engano), que solicitou um exemplar do jornal através do seu irmão Vicente Guimarães. Na seqüência das publicações, ela participou de todas as edições, até a última, que ocorreu em julho de 1969. Depois fundamos, com o Frei Márcio (OFM) o Suplemento DIADORIM no jornal “A Semana”, em agosto de 1971, que circulou até outubro de 1973, no qual ela participou de todos os números com seus belos textos em prosa e verso. Sempre leitor e amigo dela e de toda sua família.

Pergunta: em 1969 o senhor publicou em parceria com ela o livro “LAPINHA DE JESUS”, pela editora Vozes, de Petrópolis, RJ. Como nasceu a idéia de publicar o texto em parceria?
Resposta: A idéia e o convite foram dela. Combinamos escrever, individualmente, textos em forma de legendas para cada foto do magnífico presépio criado por Frei Tiago (OFM). Depois selecionamos os que julgamos mais condizentes e expressivos. De forma que cada um participou com igual número de páginas, sem distinção de autorias nas mesmas.

Pergunta: Como foi a experiência de publicar o livro em parceria com ela?
Resposta: Foi ótima, instigante, incentivadora.

Pergunta: Naquela época você imaginava que ela iria alcançar o sucesso que atingiu depois como escritora e poeta?
Resposta: Sabia do potencial dela, da gama reservada de suas idéias e sentimentos. A religiosidade inata, por assim dizer, a influenciar e iluminar a humanidade de sua pessoa numa conjugação de matéria e espírito, algo dificilmente constatável nas pessoas, em geral. Uma poesia cobrindo o trânsito no espaço e no tempo. Beleza e verdade, verdade e beleza.

Pergunta: Em sua opinião, qual a importância da obra dela no cenário de nossa nacionalidade?
Resposta: A importância é ampla e bem diversificada. Principalmente em termos de referencial lingüístico feminino. Repare bem e sinta que a linguagem dela nasce, viceja e desabrocha no papel feminino de sua existência moral e física. Sabemos que ao longo do tempo a voz masculina é a que mais ecoava nos quadrantes territoriais do mundo inteiro. As mulheres, quando escreviam e publicavam seus textos não o faziam consoante à própria autenticidade biológica. Geralmente falavam e escreviam numa linguagem tradicional de origens, meios e fins especificamente masculinos. Com Adélia, Virginia Wollf, Marguerite Duras, Clarice Lispector, Olga Savary, Lélia Coelho Frota, Marly de Oliveira, Leila Miccolis e Ana Cristina Cezar, principalmente, o lado feminino da expressão literária começou a pontificar e influenciar as novas autoras.Assim é que finalmente a mulher está conquistando a própria linguagem num mundo em que os seres masculinos sempre mandaram e desmandaram politicamente.

Pergunta: Tem algum livro dela, que é o seu preferido?
Resposta: “Bagagem” é uma obra prima, assim como “Coração Disparado”, “Solte os Cachorros”..., ah, todos são assim prenhes e geradores de novas formas e novos conteúdos vitais, em prosa e verso. Sem a menor sombra de dúvida afirmo que ela é autora de uma obra que merece o Prêmio Nobel de Literatura.

Pergunta: E se o senhor tivesse que definir a pessoa e a poeta Adélia Prado?
Resposta: As pessoas não são rigorosamente definíveis. Sei, por exemplo, que o cotidiano misticismo dela é autêntico e relevante. É uma pessoa que está ao mesmo tempo na terra e no céu, ou seja, uma pessoa comum e incomum, se assim posso dizer. Uma dona de casa, uma amiga de toda gente, uma poeta inconfundível.

Pergunta: Como entende a relação de religiosidade dela na literatura que ela produz?
Resposta: Sabemos que falar de Deus é até muito fácil, todo mundo fala sem parar. É um tema que transige no circuito universal como uma espécie de âncora, uma salvação de conduta, uma esperança de misericórdia. Mas ela fala de Deus corajosamente, empregando a liberdade da aceitação dogmática e da réplica pessoal. Nada da tradicional docilidade do catecismo. Ela sabe incursionar pelos lados às vezes obscuros, íngremes, vertiginosos, procurando e encontrando luzes, afeições e conhecimentos. Fala de Deus numa linguagem viável, não clerical, muito pessoal, transbordante.

- Daniela Fonseca é Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais.
- Fotos de Eduardo Simões, do livro “Caderno de Literatura Brasileira – ADÉLIA PRADO” – DO Instituto Moreira Sales, São Paulo, SP, Junho de 2000.


Prezada Cibele, Diretora do Jornal MAGAZINE:

Penso que para acentuar e valorizar a Entrevista é recomendável inserir no contexto as fotos das capas dos livros, assim como as fotos que mando em anexo, sem legendas, uma vez que falam por si mesmas. Seria também um bom e belo reforço se publicar também, em espaços apropriados do contexto os poemas do livro “Bagagem”, ou seja, os seguintes:

IMPRESSIONISTA

Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia:
constantemente amanhecendo.

(Página 48 do livro “Bagagem”, Editora Imago, 1976, Rio de Janeiro, RJ).


POEMA COM ABSORVÊNCIAS NO
TOTALMENTE PERPLEXAS DE
GUIMARÃES ROSA

Ah, pois, no conforme miro e vejo,
o por dentro de mim, segundo
o consentir dos desarrazoados meus pensares,
é o brabo cavalo em as ventas arfando se querendo ir.
Permanecido apenas no ajuste das leis do bem viver comum,
por causa de uma total garantia se faltando em quem m´as dê.
Ad´formas que em tréguas assisto e assino
e o todo exterior desta minha pessoa recomponho.
Porém chega o só sinal mais leve de que aquilo ou isso
é verdadeiro pra a reta eu alimpar com o meu brabo cavalo.
Ara! que eu não nasci pra permanência desta duvidação,
mas só pra o ser eu mesmo, o de todo mundo desigual,
afirmador e conseqüentes, Riobaldo, o Tatarana.
Ixi!

(publicado no primeiro número do AGORA LITERÁRIO, em agosto de 1967).


COMENDO PÊRA

Tecida do que é feita
polpa branca carne da minha carne
feita agora.
Imolada impassível
na minha boca voraz.
Sua cor, seu gosto e seu destino
às paredes de minha fome
localizada e implacável.
Natureza morta.
O que é uma pêra?
Nem estrela nem pedra.
Carne branca.
Polpa. Graça.
Ausência de si. O dom.

(publicado na edição número 1 do DIADORIM, em novembro de 1971).




A BDL – Beira da Linha.

“...Quem aprendesse andar, atravessava os dormentes, dava no botequim. O Lucrécio bebia, o Louro, irmão da Fia, bebia, o Edgar do Zé Romão bebia, o Edgar Preto, que suicidou horrível no teto baixo da cozinha, bebia, o Trombada bebia, O Jupira, que pôs placa de “casa familiar” na casa dele, bebia. A mulher dele bebia, o Bené bebia, o Zezé Moela bebia, a Vaca, pedideira de esmola, bebia, o Toezim, que tocava violão com perfeição desde os 12 anos de idade, bebia (...). Bebiam as locomotivas de farra com maquinistas e foguistas... Galinhas tontas morriam nos trilhos ( ) – uma parte da BDL é lembrança conservada em álcool”.

(fragmento de texto publicado em 1977, num jornal cultural da Associação Atlética do Banco do Brasil – Divinópolis, MG).