quarta-feira, agosto 12, 2009

NOBRE ASCENDÊNCIA - Lázaro Barreto.


Em meados do século 19 o Arraial do Desterro (hoje Marilândia) não conseguiu “segurar” a quantidade e a qualidade de sua então enorme população. Possuía até um Quartel-Batalhão da Guarda Nacional com mais de cem praças, um Juizado de Paz, uma Subdelegacia de Polícia, um Clube Dramático, dez Tabernas (nome dado às Pensões da época), um Pároco que era ao mesmo tempo Deputado Provincial (o Padre Francisco Guarita Pitangui) – e área administrativa imensa, mas depois perdeu Boa Vista para Carmo da Mata, Bocaina para Cláudio, Buritis para Divinópolis, Serra Negra e Partidário para São Sebastião do Oeste. O século 20 e seu compêndio modernizador da tecnologia e dos costumes sociais (toda a tônica civilizatória dos grandes centros) veio introduzindo as novas exigências de produção e modalidades de mão de obra. Foi assim que o Desterro perdeu, além de boa parte de seu território, grande parte de sua população. Para se ter uma idéia só na família Oliveira Barreto: as filhas e filhos do Comandante Antônio José de Oliveira Barreto: Maria José casada com Severino Moura; Arcângela cc João Professor; Idalina cc Francisco Teixeira; Bernardo (Nadinho) cc Anna Joaquina; Josepha cc David da Silva Sobrinho; Antônio (Tunico) cc Elisa Araújo – todos migraram para a região de São Sebastião do Curral, localidade fundada antes, por uma tia de todos (irmã do patriarca e comandante Antônio, citado) a Francisca de Oliveira Barreto (1824-1871, casada com Pedro Amaro Teixeira e, depois de enviuvar-se, casar com Joaquim Bernardes Teixeira, irmão do primeiro marido. Ela, com um dos maridos doaram 29 alqueires de terra para constituir o Patrimônio de uma Igreja onde o lugarejo seria erguido e hoje é a sede municipal da cidade de São Sebastião do Oeste.

No mesmo período migratório uma outra irmã dos referidos filhos do Antônio, a Virginia Cândida Barreto casou-se com David José da Silva (tio do outro mencionado), indo residir em Pedra do Indaiá, distrito limítrofe, onde depois o Bertolino José Tavares, filho de Rosalina Barreto e José Antônio Tavares, casando-se com Maria Pedro de Alcântara, foram viver, constituindo a família com os filhos Lindolfo, Maria Alcântara, Alvina, Mariles, Laurina e Alcindo (por sua vez casado com a prima Francisca Alcântara. Que o leitor desculpe o teor exaustivo do relacionamento familiar, mas não há como fugir: de um modo toda família é mesmo extensiva em seus núcleos formadores da sociedade de um tempo e de um lugar.

Meu principal intuito aqui é esboçar o papel familiar de Darly Tavares da Silva, prima, amiga e colaboradora de minhas pesquisas genealógicas. Ela é filha de Maria José das Dores e de João Teixeira da Silva (que foi aluno do Professor Nadinho, no Desterro), pais de doze filhos. É neta de Maria José Tavares casada com João Pedro de Alcântara, que era irmão da Maria Pedro Alcântara, citada. É bisneta de Rosalina Cândida Barreto e de José Antônio Tavares. É trineta de Bernardo José de Oliveira Barreto e de Josepha Maria de Jesus. Tetraneta de Antônio José de Oliveira Barreto (português) e de Anna Joaquina Cândida de Castro. Pentaneta de Faustino José de Castro e de Rosa Angélica da Luz, descendentes e ascendentes da ilustre fidalguia nordestina e paulista (os Teixeira de Carvalho, de São João Del Rei, os Inconfidentes Padre José Lopes de Oliveira, Francisco Antônio Lopes de Oliveira e Hipólita Jacinta Teixeira de Mello (única mulher que participou realmente da Inconfidência), os Vidal Leite da Zona da Mata, os Fontouras, os Andradas, os Caldeira Brant, os Castros, os Vilas-Boas, dezenas de membros da nobreza imperial e de patronos da instalação republicana, preponderantes na classe dirigente de várias regiões do sudeste brasileiro.

A pesquisa genealógica às vezes parece um exercício de ficção romanesca. A Nair Tavares da Cunha, filha do já citado Alcino José Tavares e de Francisca Alcântara Tavares, informou-me que, viajando uma vez de avião ao lado do então Presidente da Academia Brasileira de Letras, o escritor Austragésilo de Atayde, ouviu dele, depois de revelar o sobrenome da própria família (Pedro Alcântara), que ela devia ser descendente de Dom Pedro I e da cortesã (costureira da Corte) Clemente Saisset, esposa de Pedro Saisset, comerciante estabelecido na Rua do Ouvidor, Rio de Janeiro, deslize conjugal do Imperador, também citado no livro “Cartas de D. Pedro I à Marquesa dos Santos – Notas de Alberto Rangel”, Edit. Nova Fronteira, RJ, 1984, na página 323. E na página 338 a citação vem com o nome de Henriette Josephine, esposa do marselhês Pierre Joseph Félix de Saisset, estabelecido com sua firma comercial com o nome de Saisset e Cia., em 14/03/1827. Segundo as palavras do escritor à Nair, o imperador teve que obedecer a exigência da Imperatriz Leopoldina e expulsou o casal do país, mandando o filho bastardo para ser criado longe da Corte, aos cuidados de um amigo que tinha no Senado (tinha esse nome) de Pitangui, de onde recebia mesadas até a abdicação e o retorno do imperador a Portugal.

Sabendo, pois, da Nair, que sua família com aquele emblemático sobrenome (Pedro Alcântara) era procedente de Pedra do Índaiá, um Distrito então da Vila de Pitangui, ambos (o escritor e ela) chegaram a acreditar, durante a conversação na viagem, que a hipótese do remoto parentesco podia merecer uma confirmação, posteriormente. “Nunca tive outro contato com ele”, ela me disse. Fiquei interessado no assunto e depois, pesquisando no Arquivo Público Mineiro, de Belo Horizonte, encontrei no documento “Registro Paroquial da Vila de Pitangui – RP 161, folha 63, 1854-1856, APM”, a seguinte anotação: “Em 26/05/1854 me foi apresentada a seguinte declaração: João Pedro de Alcântara possui pastos de terras de cultura e de campos em comum na Fazenda Morrinhos. Divide-se com as Fazendas Contage, Pompéo, Junco, Alegre, Catita, no Distrito de Maravilhas, desta Freguesia de Pitangui – 22/03/1856”. Senti que a informação de Dona Nair tinha cabimento em termos de datas, locais e nomes. Dom Pedro I chamava-se Pedro de Alcântara Francisco...de Bragança e Bourbon; seu filho e sucessor no trono ostentava o nome de Pedro de Alcântara João...de Bragança e Hasburgo. Ato contínuo ao da pesquisa no APM, fui à Biblioteca Pública Luiz de Bessa, ainda em BH e consultei vários livros sobre os dados biográficos do Imperador e não consegui confirmar nem desistir da hipótese levantada pelo Acadêmico da ABL. O certo, pelo que sei e ouvi contar, é que os familiares mais antigos da Maria Pedro Alcântara viviam como se fossem herdeiros do Trono, ou seja, esnobavam luxo e riqueza, aptidões e conhecimentos.

Citei, acima, a prima e amiga Darly, que iniciou seus estudos no antigo Ginásio São Geraldo, em Divinópolis, ali concluindo o Curso Ginasial. Foi para Belo Horizonte onde fez os cursos de Técnico em Contabilidade pela AEC, Magistério, no Colégio Afonso Arinos . Depois, Estudos Sociais (Licenciatura Curta) no Colégio Leão XIII em Divinópolis e, por fim o Curso de Letras (Português-Francês) pelo INESP, também, em Divinópolis. Foi Secretária da Prefeitura,Vereadora e Secretária Municipal de Saúde de Pedra do Indaiá, pessoa lúcida, dinâmica e culta, que não se contém na rotina cotidiana da vida social de uma pequena cidade. Dedica suas horas vagas em leituras e escritas em prosa e verso. Abaixo um poema de sua autoria, escrito recentemente.
Passado, Presente e Futuro

Naveguei no arco-íris, transpus caminhos inusitados,
Peguei carona com o vento, voltei no tempo e no espaço.
Quis rever o que foi belo, inebriar-me no que foi bom,
Saborear delícias de criança, da vida jovem e adulta,
Quis fazer um “flashback”e mergulhar-me no passado.

Fui peralta na infância ao pegar os canarinhos,
Colocá-los na gaiola e ouvi-los (coitadinhos)!
Mas também fui boazinha quando a Virgem coroava
De cetim e de grinalda, lindos versos entoava!

Aproveitei a juventude com limite e lealdade
Nos bailes boa dançarina, a flertar o pretendente
O cupido aparecia, o coração batia ardente
E uma noite era pouca para tanta felicidade!

Mais adiante, não fiz bem a escolha do meu par,
Sob juras de amor, chegamos aos pés do altar.
Não lamento a desventura: da união colhi o louro,
Pois ganhei um lindo filho, minha vida, meu tesouro.

De tudo que vislumbrei, foi-me dada a opção
De guardar na minha mente e tirar a conclusão:
Valeu a pena a trajetória desse tempo que se foi?
Ou há muito que mudar para o presente melhorar?

Vou colher o que plantei, disso consciente estou:
Se foram rosas, terei rosas, se espinhos terei espinhos
O meu futuro será fruto do que fui e do que sou.