segunda-feira, julho 27, 2009

EMILLY DICKINSON SOB A NÉVOA (*) - Conto de Lázaro Barreto


Emilly Dikinson nasceu em 1830, mesmo ano do nascimento de minha bisavó Archângela Lucinda do Espírito Santo, casada com Antônio José Tavares, ambos egressos da Província de Guimarães, Portugal, e moradores, no final do século 18, nos nos sertões de nossa Estiva. Emilly também vivia nos sertões de Massachussets, no Povoado de Amhrest, EUA. Ambas, uma poeta e a outra fazendeira, teriam alguns pontos em comum? Creio que sim porque eu, descendente de uma, encontro-me tanto na outra, tantas vezes em tantas afinidades. Quem sabe sou uma das reencarnações dela?
Quem me dera! Sinto-me feliz e a Deus agradecida por me dar, tanto tempo depois, tantos pontos em comum com a angelical poeta dos finos sentimentos e das reluzentes idéias. Ela autora, eu leitora, mas ambas vivenciadoras de partes por assim dizer idênticas do quinhão da poesia. Eu também não consigo desfazer-me dos sinos cujos toques suavizam os caminhos. Os sinos dela eram seus escritos e guardados: 1.775 poemas encontrados por sua irmã Lavínia. E meus sinos? Ouço-lhes os timbres, a ressonância, mas não sei reproduzir os sons, como ela sabia. Mal-mal consigo silenciar os momentos para marcar os titubeantes passos aos sonoros repicados dos de nossa Igrejinha do Rosário. Eis o que de longe e resumidamente capto da ressonância dos dela:
os séculos passaram, mas cada um deles
é mais breve que a duração de um dia,
de um dia que vi a cabeça dos cavalos
a singrar a nossa eternidade.

Quando aqui as cores do crepúsculo desaparecem, onde elas reaparecem? Em 1844, aos 14 anos de idade, ela sofreu um colapso nervoso ao saber da morte da melhor amiga, chamada Sofia Holland (imagine ó eu sempre ao lado dela, pelo menos no nome). Ela tinha uma irmã chamada Lavínia, que é o mesmo nome de minha irmã mais velha. Antes de falecer conheceu a poeta Helen Hunt, que tornou-se sua admiradora e editora póstuma. Morreu aos 54 anos, e parecia não ter mais que 30: nenhuma ruga, nenhum
cabelo branco, a paz estampada na bela e cândida fronte. Sepultada sob a relva juncada de botões de ouro, violetas e gerânios silvestres. Era pequena como uma cambaxirra, tinha os cabelos como arestas do castanheiro e os olhos como o xerez que a visita deixa ficar no fundo da taça, segundo as palavras do crítico literário F.H. Higginson, em 15/05/1886. Fazendo aqui estas anotações, fico pensando no meu sentimento por José Antônio Tavares, também poeta sensitivo e inspirado. Não é uma outra coincidência em minha vida? Amo a poesia de Emilly como ele ama a poesia em geral. A dela ele aprova, mas já leu apenas alguns fragmentos. Como é que pode um desencontro assim? O mundo é grande e pequeno de quando em vez, como se diz. Preciso com urgência emprestar meu livro dela a ele: quem sabe assim ele vai escrever até melhormente? Ele é muito ressabiado e comedido, imagine só: ele nunca deixou-me ler os poemas que escreveu depois que estamos a namorar. O que será que está dizendo de mim e como será que diz? Ou será que não represento nada pra ele, poeticamente? Nesse ponto a Emilly é mais direta e sincera: cochicha aos meus ouvidos o que depois declama aos meus olhos fascinados.

A natureza gosta de usar os belos adornos, como as moças – é o que ela disse do nosso querido e nunca assas amado Brasil, que ela conheceu de ouvir falar. O que poderia fazer com a noite diária para que ela recapitulasse indefinidamente o sonho perfeito que nem a nódoa da aurora consegue tingir? - Ela se pergunta na clausura de seu moderno Olimpo, - ela a noviça, a novata, a novíssima poeta Emilly Dickinson.

“Através da paciência consegui a Beatitude com a qual vou conseguindo preencher meu vazio, respirando sem você”, ela disse a um possível namorado platônico. Às vezes ela parece não ter razão, mas sempre tem. Quando ela diz a quem queria namorá-la: “a minha recusa faz de você uma pessoa mais feliz. Não sabe que a palavra NÃO é ambígua e desvairada?” Eu também sou muito assim temerosa, incipiente, desanimada. O sabiá é o jesuíta dos pomares, na minha opinião. A cobra é um pente sobre a grama. Isso foi ela que escreveu ou eu que pensei? A aranha a tecer golas de seda para as princesas da rainha, o rato é o malquisto inquilino, é o que penso, pensando que ela me cochicha. Enquanto isso acontece, a minha bisavó Archângela, dona da antiga casa da Fazenda Nova de nossa bela e querida Estiva, ou a própria Emilly da bucólica Amhrest varre as nuvens da terra para o céu nosso de todo santo dia.

A poesia dela é de uma beleza que faz sorrir, de um sorrir que faz chorar. No dia em que o musgo alcançar nossos lábios e encobrir nossos nomes na campa (assim ela dizia). Nesse dia (eu acrescento ou é ela ainda que fala?) o espaço será informe e vazio, como antes da Criação. Assim será a não-vida no não-mundo, sem a múltipla e unitária presença da Verdade e da Beleza. Para desfazer o vazio (agora a voz é plenamente dela), ponha de volta o que o causou. É inútil cobri-lo com outra coisa. Mais vazio ele ficará, pois como seria possível soldar o abismo com o ar? Ela morreu (e como se ela mesmo dissesse de sua morte) e foi assim: quando sumiu-lhe a respiração, ela tomou seu modesto enxoval e partiu para o sol. E como uma criança, ela faz seu apelo ao Pai do Céu:
“Papai do céu,
olha o rato sujigado pelo gato!
Papai do céu,
reserva em teu reino uma morada
pra ele!
Uma boa instalação, uma seráfica dispensa,
onde ele possa mordiscar o dia inteiro
o queijo mais corado e caprichado.
Enquanto por outro lado,
sem de nada suspeitar,
os Ciclos passam, solenes, a girar
a girar!

(*) fragmento não aproveitado do romance inédito O PIÃO ENTROU NA RODA.