quinta-feira, agosto 27, 2009

SABOREANDO PELAS BEIRADAS II - Lázaro Barreto.


DIA E NOITE

O homem do campo chega à beira da fome.

A tarde pousa em um dos seus ombros.
Ele cava sete palmos de terra.
Planta uma bandeira de milho.
Dorme enquanto o dia não vem.

O homem da cidade chega à beira da fome.

A noite esmaga-lhe um pé.
Ele entra na fila da morte.
Acende um pito de pólvora.
Dorme enquanto seu dia não vem.

DOIS HOMENS E MEIO.

De um modo geral a televisão brasileira piorou muito nesse longo hiato do governo lulista. As figuras predominantes são nojentas, não? Fico mudando de canal até fixar-me nos programas estrangeiros da SKY, cujos seriados são bem imaginados e melhormente realizados, interessantes, divertidos e instrutivos. Um deles, canal 44 da Warner, o “Two And Half a Men” focaliza uma casa de classe média, ocupada pelo cara compulsivo do sexo casual (Charlie), seu irmão bobo até falar que chega (Alan) e o sobrinho (uma porta que come, uma nuvem de metano em forma de gente) Jake e a descomunal empregada doméstica (Berta). O convívio é extravagante, hilário, atritoso e ao mesmo tempo afetivo, capítulo a capítulo duas vezes por dia, de segunda à sexta. A abundante, estrepitosa, esfuziante presença feminina enriquece a convivência nas pessoas de Judite, Rose, a mãe de Charlie e Alan e a sensuais jovens emancipadas da tolerante sociedade norteamericana.. Nos sucessivos capítulos dos variados enredos surgem uma infinidade de mulheres de vida fácil (?), cada qual mais cativante que a outra, todas causando problemas e prazeres, provando, afinal de contas, que a banalização do requinte esvazia o deleite – e que se a sensualidade perde o encanto quando se torna um vício (uma obrigação mecânica e cansativa), perde também o sentido original da erótica epifania corporal. O seriado é altamente recomendável para desopilar o fígado, é igual ou melhor do que alguns da televisão brasileira, agora infelizmente empobrecida diante de um contexto social tão avacalhado.

PALIMPSESTO.

O que é maravilhoso na literatura é a noção de que tudo já foi dito
e, no entanto,
quase tudo ainda está por dizer- e que a Vida, incluindo nela o Mundo,
é o palimpsesto ágil e prolongado,
é a idéia e a imagem, coladas em tela ágil e prolongada,
no mural das idades.
A história e a geografia vão e nos levam
na mesma escada rolante
que leva a parte de frente do Tempo
e que traz a parte traseira do Tempo,
numa enigmática variação de tons que nos acordam
de um sonho mais lúcido
do que tantos outros, irresolvidos e indisponíveis.

O DOM DA PALAVRA.

Qualquer palavra, uma vez amada, fica na memória...
O dossel da árvore e da cama
transparece na palavra que pode ocultar-se
para preservar suas ramificações
e bifurcações.
O olhar é uma palavra e continua sendo um olhar:
a mesma versificação da prosa na poetização
dos afagos e das desventuras.
Nem que passem meses e anos, a palavra tangível
de um certo olhar miraculoso,
continua gravada numa tela invisível aos olhos do corpo,
assim conservando na treva dos outros uma certa luz
individual-indivizível
na janela dos anos.

POESIA.

Ana Cristina César, entre os complementos:
o gato era um dia imaginado nas palavras.

AS ROÇAS QUE NÃO VOLTAM MAIS.

Igual a estória do roceiro que latia no terreiro da casa para economizar cachorro é a de tantos roceiros que iam descalços ao Arraial no dia de Festa ou de Missa – e só quando chegavam perto da povoação é que lavavam os pés e calçavam as botinas, - e assim chegarem bonitinhos na rua do arraial. O Córrego onde passavam até se chamava Lavapés. E também dentro do próprio arraial as pessoas ridicas (sovinas) andavam calçadas apenas num dos pés, a fim de que poupassem uma das botinas. Justificavam a manquitolagem com a alegação que o outro pé foi ofendido por um estrepe enquanto roçava um pasto. E assim variavam: um dia saiam calçados do pé esquerdo e no outro dia com a botina no outro pé. De forma que a vida útil do par de calçados durava o dobro do tempo.