domingo, abril 25, 2010

INSTANTE FEÉRICO (2) - Lázaro Barreto.


De onde estava só podia ver o dorso e não a palma
da mão dela.
Os dedos elegantes, francamente desnudos
- pentagrama chopiniano escrevendo o belo prazer,
o belo prazer
de articular os emblemas do prelúdio e do epílogo
da façanha vital,
sem sair do lugar em que estava.
Os predicados naturais exorcizam os anátemas
nas profundezas do poço abjurado.

O polegar e o indicador seguram a página
do jornal noticioso.
Os outros dedos descansam na mão carinhosa,
cada qual com sua específica palavra de amor
negado ou obtido,
a esquecerem o frio de tantos invernos,
a escreverem o calor daquele momento,
a refazerem das cinzas o fogo
que volta a crepitar,
que volta a crepitar
(no meio das glicínias).