segunda-feira, abril 26, 2010

PASMACEIRA - Lázaro Barreto.


Se ainda estamos neste baixo astral de terra magoada,
amassando o barro do dia enfadonho,
expiando culpas no cartório e pecados na sacristia,
é por que
não somos flores que se cheirem?

Somos o ranzinza caído e pisoteado?
O torpe vencedor ou o reles vencido?
O vento que sacode as árvores do quintal,
não seria o aziago sopro de nossos obsessores
da baixa atmosfera,
que azucrinam nossas idéias,
que aguçam nossas malfeitorias,
que disparam infartos e derrames contra nossa debilidade
psicofísica?

Quê lástima!
O dia é longo no envoltório de gazes densos
que atravessam
o rio das fezes e das urinas...
O sabiá fica perguntando no alto da mangueira:
“por que a morte não vem de uma vez?”
Puta merda!
Em seu lugar vem o tempo nevoento
(diapasão nojento),
a eternidade em pedaços sujos e esfarrapados.