terça-feira, fevereiro 28, 2006

O PIÃO ENTROU NA RODA, Ó PIÃO! - Romance

Fragmentos: 

Página 20: Eulália, a Professora: Qual daqueles rapazes na década de 60, em minha terra, seria capaz de fazer da garota dócil e gentil, carinhosa, sincera e vulnerável, uma mulher amarga, infeliz, desesperançada e ressentida, fazer de minha querida irmãzinha Eunice essa zumbi dos dias de hoje nesta Bemposta tão atrabiliária? É verdade que até eu mesma só vim conhecer os rapazes sedentos e arrivistas, que hoje priorizam o ter sobre o ser, alguns anos depois e já aqui nesta Bemposta arrevezada, quando passei a desviver num mundo povoado de neuroses, quando passei a desconfiar até mesmo da roupa que vestia. Ela sempre foi uma garota com problemas, como aliás todos lá de casa. Meu pai desafinava feio e acabou morrendo depois de uma bebedeira, ao voltar para casa a cavalo, de Serra Negra, numa estrada esburacada, numa noite escura e tempestuosa. No meio do aguaceiro, dos relâmpagos e trovões, ele caiu do animal e teve o corpo coberto pela enxurrada. De manhãzinha, passada a tempestade, o sol saindo na cadeia de montes da Serra Negra, o cavalo chegou à sede da fazenda (onde morávamos) e lá na beira do curral ficou a rinchar, arreiado, mas sem o dono. Nessa época eu já não morava lá, mas sim aqui mesmo neste apartamento, que então alugava e que depois comprei. O pessoal da fazenda foi atrás do cavaleiro, que jazia numa ladeira entupida de areia, cisco, barro e água – só os braços e parte do rosto do lado de fora. Deus que me perdoe, mas até hoje não entendo porque o pai abandonava suas obrigações na fazenda, seu amor à família, para satisfazer à voragem do vício. Pobreza de espírito, fraqueza da carne? Ou seríamos, na opinião dele, pessoas desprezíveis, indignas de seu amor? Uma garrafa de pinga era mais importante para ele do que todos lá de casa? Não me importo se esta queixa afeta ou não à memória de um pai que não é o primeiro nem o último a trocar a alma por uns míseros pés de cana fermentada. Eunice era a caçula e saiu puxando em tudo (na beleza, na contemporização, na lerdeza) a nossa mãe, outra vítima do machismo paterno, então vigorante e só agora tardiamente questionado pelas pessoas que apitam alguma coisa na sociedade. Mas como ia dizendo, a Eunice lá de casa era uma gracinha de pessoa, a estrepolia benfazeja dos quartos de dormir, dos terreiros e arredores, uma bênção dos anjos e do santos mais afeiçoados. Hoje, quando a vejo transformada num zumbi aqui nas ruas da cidade, a andar sem rumo, muda e patética, sem saber em qual rua seguir ou voltar, ah fico com o nó na garganta apertando toda a parte interna do corpo, toda a parte externa da mente. Ela era uma bruxinha, quando pequena: bonitinha, engraçadinha, levada da breca; a única que tinha a liberdade de fazer o que bem entendesse. Papai nunca se arrenegou dela, nunca lhe passou o menor pito. Ao contrário, ela é que mandava nele, mas mandava só nas mínimas coisas, o que era uma pena, pois se ela quisesse mandar nas coisas maiores (mudar o comportamento brigão e ébrio dele), ah, penso que ela conseguiria, pois ele pelava de medo dela, não suportava o olhar de reprovação dela e atendia até os pensamentos dela – embora tal temor o afastasse dela, pois ele não podia desmanter sua aura de mandonismo. Como se ela fosse a mãe dele. Página 60: CORO: A palavra que dormia sob os cobertores de algodão descobriu a cabeça, olhou-me nos olhos e disse algo que se cristalizou no frio da noite, e ali mesmo se eclipsou, perdendo-se na treva no quarto. Acendi a luz para flagrá-la na rapidez do som e do rabisco... Mas ela tinha sumido com o que disse, deixava-me perplexo, a procurá-la no ar, no chão taqueado, nas cortinas envelhecidas, nas paredes descoradas, no teto manchado, numa abertura qualquer, onde ela pudesse voltar para dizer-me o nome de si mesma e do que disse... Mas nada, nada dela no meu campo visual... Por que fugiu de mim, agora chamando-me de mais longe, lá de fora no mundo largo e comprido que me sufoca? Página 120 – José Antônio, escriturário e escritor: Ao fazer a faxina semanal no quarto do Goteira, resolvi mudar o guarda-roupa de lugar, arredando da parte de vidro da parede do fundo para a parte de alvenaria de um dos lados. Quando consegui e começava a limpar, vi o buraco no vidro, que abria a visão para o telhado da casa vizinha e também para um dos quartos de janela aberta do segundo pavimento da mesma casa, uma espécie de mansão de novo-rico. Ali morava o homem mais rico da cidade, o Julião, ex-prefeito da minha Serra Negra e hoje famoso empresário e comedor-de mulheres, corrupto até não mais poder. À noite, quando ia dormir e providenciava tampar o buraco com uma tira de papelão (e assim evitar a entrada de ar frio), vi um quadro erótico digno de uma mirada mais atenta, uma contemplação instigante. A mulher nua estirada na cama, lia um livro (ou revista) que a incitava sexualmente – assim pensei, vendo-a reter e passar as páginas e ao mesmo tempo bolinar as partes pubianas, revirar o corpo na cama e finalmente contorcer em completo e demorado orgasmo. Fiquei boquiaberto, fascinado, na quarta dimensão, duvidando do que via (muita banana por um tostão, como lá diz o povo de minha terra). Propenso a repetir o que via (a denodada demanda masturbatória), consegui conter o desejo, reter a respiração, extasiado. fiquei um tempão olhando-a, descontraída e satisfeita, ainda belamente pelada a ler ou reler e a refazer a descuidosa e agora despretenciosa bolinação. Quê livro maravilhoso estaria lendo? Ah, um assim é que ainda hei de escrever, pensei, motivadíssimo. Os grãos de pólen da libido, os tinidos em surdina da erupção orgástica, as cortinas balançantes da penumbra, os pássaros nas árvores do telhado, os secos relâmpagos da tensão crescente, do tesão crescente e incontido. Porra no bom sentido, alimento das expectativas, bálsamo das esperanças. Página 230 – Narrador Onisciente: O que mais desestimula a literatura brasileira é a biografia de seus escritores. Todos vivem no nevoeiro, na prática da anti-poesia, no desagrado alheio, sob o olhar censório dos parentes, amigos, conhecidos e sobretudo das autoridades politicamente constituídas. O nosso amigo José Antônio retrata bem a faina inglória coroada do genérico desdém, que o obriga a reconhecer, entre lágrimas, mas sem esmorecer, que escritor bom é o escritor morto e não o que em vida tropeça aqui,cai ali e levanta acolá. Antes de fundar, com os amigos, e dirigir o jornal literário, ele colaborava em todos os jornais da cidade e em alguns da capital, sempre manifestando o ideário a favor do que julgava ser o bem e a verdade, noticiando, enaltecendo e depreciando o que acontecia nas áreas culturais, políticas e sociais. Nem sempre era abem sucedido. Além dos erros de revisão e do corte da censura, ainda tinha que aturar as reclamações de pessoas que se julgavam ofendidas ou não completamente agradadas. Página 336 – Coro (fragmento): A cidade às vezes não passa de um palco de deslocados, os atores que não sabem os papéis que vão representar... Os pobres são mais inconstantes, mais impulsivos? Os ricos mais assumidos, mesmo na frieza e na vileza? O poder do dinheiro está em toda parte (nos pórticos fachadas pisos tetos) como obstáculos da felicidade... Como, pois, deixar de sentir a necessidade de refugiar-se nos lugares onde só se vê terra céu árvore pedra e água e bicho onde só se ouvem pios e cânticos e cânticos?