sexta-feira, junho 02, 2006

A Cultura Popular

A CULTURA POPULAR - Lázaro Barreto.


A degradação semântica da palavra folclore (notada por Luís Rodolfo Vilhena, no livro “Projeto e Missão” – FUNARTE 1997), associou-se a uma visão reacionária de sociedade e de cultura, que remete não só ao conservador mas também ao anedótico e até ao ridículo. Lembro que sentia essa degradação quando executava um projeto para o Instituto Nacional do Folclore (que eu preferia chamar de Instituto Nacional de Cultura Popular). Antes disso cheguei a sugerir, infrutiferamente, a troca de nome da Comissão Mineira de Folclore (da qual eu era membro efetivo) para Comissão Mineira de Cultura Popular. Acreditava, e ainda acredito, que o folclore estava saindo da esfera sólida da ciência social e entrando na instável agenda do turismo de lazer epidérmico. A propalada folclorização do negro, de Gilberto Freyre, não deixa nada a desejar da folclorização do povo baiano, de Jorge Amado. Ambos estão mais para o bizarro e o exótico do que para o antropológico e o sociológico. Creio que a cultura popular é tudo o que o povo sabe e vive na escola da vida, que é o mundo – que é um curso de longa duração e de bela vivência. Tem nele o Sistema de Crenças (as religiões populares e não-dogmáticas), a Cultura Material (o artesanato decorativo e o utilitário), a Literatura Oral (as lendas e fábulas, os mitos e contos, o cancioneiro das trovas e modinhas, as cantigas de roda e de ninar, as parlendas e desafios, os trava-línguas, as legendas de parachoques de caminhões, as mensagens mural e latrinária, os ditados, as fórmulas de jogar e de brincar e de namorar, os ditames comportamentais....

Quando trabalhei na referida pesquisa, enchi dezenas de cadernos com anotações de constatações temáticas, muitas vezes produzidas pelo raciocínio alinhador, outras vezes copiadas diretamente de fontes bibliográficas e algumas vezes de declarações de interlocutores ou de deduções de longas conversas temáticas. Abaixo algumas sobre as crendices sistematizadas da religiosidade popular de nossa gente:
- O que se entrega para Deus: o mal sofrido, na esperança de que a vingança (a justiça, melhor dizendo) seja feita pelo poder mais alto e não por quem se reconhece impotente.
- As almas tomam conta da roça, do gado, da família, da casa.
- A magia, a bruxaria e a feitiçaria são elementos apócrifos da religiosidade, práticas esotéricas que perdem a ressonância social para ganhar a conotação do corporativismo afetivo e anárquico, uma espécie de subproduto da improvisação e da criatividade individual ou de grupos restritos.
- As pessoas podem se transformar em animais, em lobisomens e/ou incorporar almas do outro mundo? As perguntas procedem , mas têm respostas evasivas.
- As aparições sobrenaturais em horas mortas e lugares ermos são as dos fantasmas (sombrações), da fadas, das bruxas, dos animais indefinidos-inonimados, dos capetas.
- Curandeiros famosos de minha terra: Zé Pereira, Noca, Toniquinho Serafim, Zé Gominho, Pedro Dona, João Norico, Zé Requel e Joãozinho Bela.
- O homem tem muitas noções sobre Deus. Quando está triste e dependente, Deus é o Pai; quando se sente desamado, Deus é o Amor. Lidos alhures.
- Spencer disse: “O medo aos vivos é a base do controle político e o medo aos mortos é a do controle religioso.... Vivendo em um ambiente de perigos, o homem primitivo povoa seu mundo de espíritos, demônios e espectros. ( ). Por mais que se trabalhem planeje e esforce, ninguém pode controlar o mundo que o cerca: um ser superior – Deus – existe implícito. Os espíritos e os duendes são os antepassados dos deuses”.
- Freud observa que o princípio popular da magia é a crença na onipotência da vontade humana. As conexões são imaginárias e não reais. Se matamos simbolicamente uma pessoa, esta perecerá. Mas não sejamos tão cruéis, vamos apenas espetar espinhos em sua imagem (um boneco, uma foto) para que o inimigo apenas sofra e não morra.
- Frazer garante que a magia é anterior à religião e que foi dela que a ciência nasceu.
- Goldensweiser mostra que o elemento comum à magia e à religião é a aceitação do sobrenatural com o fervor da crendice.
- O indivíduo se vale da religião para mitigar os temores, ansiedades e frustrações. A sociedade, para manter e fortalecer os laços favoráveis à estabilidade social.

Os folguedos natalinos são ricos em poesia, em antropologia, em religiosidade. Encantam, revelam, afeiçoam, enriquecem a vivência social das camadas populares, preludiando e complementando as mensagens cristãs dos presépios e das chamadas missas do galo. Uns são mais regionalizados, outros mais abrangentes. O Reisado, por exemplo, tem suas implicações e derivações com as Folias de Reis do Sudeste e com o Bumba-Meu-Boi do Nordeste, o Rei dos Bois do Espírito Santo, o Boi de Mamão do Paraná e Santa Catarina e o Boi-Bumbá da Amazônia. São autos populares com os cantos e danças imbuídos de graça e de certa dramaticidade devocional, constituídos de episódios como os Pedidos de Abrição de Porta, a Louvação do Dono da Casa, a Louvação do Divino, as Marchas e Entradas na Sala, os Cantos da Ceia e os da Despedida. Théo Azevedo recolheu no Estado de Alagoas a seguinte cantiga de Abrição da Porta.
Aqui estou em vossa porta
Em figura de raposa.
Não quero que me dê nada,
pois o dar não é grande coisa.
Aqui estou em vossa porta
como um feixinho de lenha
esperando pela resposta
que de vossa boca venha.

Constatações sobre o Artesanato;
a sua origem é, inegavelmente, rural e remonta à arte primitiva dos povos mais recuados no tempo. Onde, se não na roça, o homem, não tendo como comprar as coisas, tem que fazê-las? Do artesanato utilitário: a fazeção de balaios, tamboretes, catres, bilhas e potes, moinhos e monjolos, pilões, peneiras, colheres de pau, cestos, samburás etc., ele acaba cometendo, como todos nós, pobres mortais, sua licença poética, e transige para a feitura mais elaborada e caprichosa do chamado artesanato decorativo: o vaso de argila, a imagem de santo em madeira, o risco e o bordado, que afinal perpassam na manufatura dos próprios objetos utilitários: às vezes o próprio cabo de uma enxada é embelezado em seu arranjo funcional e uma simples banqueta vem ornada de signos estéticos e cabalísticos. Esse gosto, esse exercício começa na infância, como uma ocupação espontânea e natural: a criança está constantemente criando coisas com os materiais encontrados na natureza: miniaturas dos artefatos e edificações, curralinhos no terreiro, casinhas de brinquedos, variantes de regos com bicas e cascatas, carrinhos de bois em madeiras e mesmo em frutas verdes, cavalinhos em cana de milho etc. Nas cidades, onde a intercomunicação com o meio rural é estreita, mas mesmo assim atuante, o artesão ainda é requisitado, só que agora não mais com a funcionalidade profissional de antes, mas como um simples biscateiro – pois as novas tecnologias substituíram, pela facilidade e não pela qualidade, a produção individualizada das peças de serventia e de enfeitamentos.

A Literatura Oral:
A literatura oral, que devia ser um fenômeno eterno e universal (porque integra, por dentro, o comportamento popular em todo contexto social) está, a cada dia e cada vez mais, perdendo seu espaço e sua vivência. A má distribuição populacional no planeta causa a inchação de algumas regiões e o esvaziamento de outras. Com a área rural despovoada e a urbana despida do antigo bucolismo das ruas e dos quintais, com os espaços público e particular infestados de gazes e barulhos, engarrafados de veículos e pedestres apressados e as casas entupidas de quinquilharias..., quem vai arriscar a cair no ridículo e contar estórias e lendas e mitos, se conseguir quem queira ouvir para depois debochar? E as crianças, como vão brincar de pique e de pião, jogar malha e bola, dançar e cantar o repertório peculiar da infância? Onde promover as inocentes e belíssimas cantigas de roda? Como cantar no meio de tanto barulho? E como brincar de passar o anel, de ficar na berlinda, se todo mundo está dentro de casa vendo as insípidas novelas de televisão?

É uma pena, pois a literatura oral com suas trovas, cantigas, contos, lendas, mitos, provérbios e passatempos verbais e jogos corporais, aprofundava o sentido da vida, levava o cotidiano para uma esfera mais duradoura, exprimia os desejos do coração e do sexo, criando sucedâneos psíquicos do prazer, ou seja, a poesia, a religião, o sonho, a esperança e a noção do belo e do verdadeiro, através de tantos jogos verbais, cujo repertório é imenso e variado de acordo com as regiões do Município, do Estado, do País, do Continente, do Globo Terrestre. Anotamos aqui uma amostragem de enigmas e suas respectivas decifrações:
- Amigo do coração/Soletrai, se ler sabeis/Nas quatro primeiras letras/ O vosso nome achareis (1).
- Uma cerquinha de bom parecer/que nenhum carapina sabe fazer (2).
- Uma caixinha de bom parecer/que nenhum carapina sabe fazer (3).
- Quanto maior, menor se vê (4).
- gado miúdo/curral redondo/não há quem conta/senão seu dono (5).
- Todos me chamam mar/Meu nome não é assim/Soletre quem souber ler/E deite sentido no fim (6).
- É verde e não é capim/É branco e não é papel/É vermelho e não é sangue/ É preto e não é carvão (7).
- Sou uma mocinha bonita/Das perninhas delicadas/Ao som da minha trombeta/Jogam-me as bofetadas (8).
- Qual é o lugar onde tem mais burros? (9).
- Altas torres/ e lindas janelas/ Abrindo e fechando/ sem ninguém pegar nelas (10).
- Outra caixinha de bom parecer/Que nenhum carapina consegue fazer (11).
- De Roma me veio o nome/ E coroada nasci/ E os cem filhos que tive/A todos de encarnado vesti (12).
- No alto está/No alto mora/todos o vêem/Mas ninguém o adora (13).
(Respostas: 1 – asno; 2 – dentadura; 3 – amendoim; 4 – escuridão; 5 – estrelas; 6 – marfim; 7 – melancia; 8 – muriçoca; 9 - na água; 10 – olhos; 11 – ovo; 12 – romã; 13 – sino.

O repertório das expressões populares consagradas pelo continuado uso é uma espécie de pronto-socorro do homem do povo em suas cotidianas conversações. Lembro-me de quando era menino lá em Marilândia e ficava nas portas das vendas e debaixo das árvores da rua, ficava horas e horas só pelo gosto de ouvir as pessoas comuns da vida do arraial e das roças adjacentes na propagação das notícias e na contação dos casos. Cada um tinha a sua linguagem repleta de maneirismos e até de neologismos. Cada um cultivava o gosto de falar porque sabia que os outros cultivavam o gosto de ouvir – porque afinal todos, um a um, eram ao mesmo tempo falantes e ouvintes. E hoje quando ouço os falares dos diálogos na televisão, fico bobo de ver como são diferentes (mais pobres?) do que os falares dos diálogos dos chamados homens do povo numa venda ou debaixo das árvores do arraial.

Alinho abaixo mais alguns ditos populares em sua forma original e na respectiva tradução para o prosaico entendimento de nossos dias: É só pena que voa (tudo está acontecendo); deste mato não sai coelho (não precisa esperar nada de bom); o tiro saiu pela culatra (feitiço contra o feiticeiro); quer sarna pra coçar (procurar encrenca); está morto mas esqueceu de deitar (aparência ruim); tirar o pé do atoleiro (ganhar muito de uma vez); só tem o dia e a noite (pobreza econômica); já vai tarde (desprezo); dá nó até em goteira (sujeito ranzinza); bicho de sete cabeças (coisa complicada); macuco no saco (problema difícil de resolver); o diabo em figura de gente (pessoa má); nadar de braçada (facilidade); nem abanou o rabo (não se importou); quebrar uma telha (praticar sexo); vai com um pé e volta com outro (depressa); sangue de barata (passividade); vai com os que ficam (não vai); fazer gato e sapato (abusar); abraço de tamanduá (afeição falsa); arranca os olhos e lambe os buracos (ardiloso e velhaco); rasgar o cu com a unha (raiva e desespero); atolado até o pescoço (cheia de dívidas); é mais fácil Deus pecar (coisa difícil de acontecer); tirar uma alma do purgatório (praticar uma boa ação); rato da barriga branca (ladrão); arriscar um olho (aventurar cautelosamente); com um pé na cova (em má situação); virou um grude (insistência); está morta a égua (deu tudo errado); deitar o cabelo (correr); fogo de palha (alegria momentânea); munheca de samambaia (avareza); é só balangar o beiço que o cachimbo cai}; um tiro no tico-tico (muito esforço por coisa pequena); meu nome não é osso para andar na boca de cachorro (resposta a mexeriqueiro); aí é que a porca torce o rabo (na hora do aperto); quem já viu formiga ter catarro? (quem é pequeno para grande empreitada); quem já viu defunto enjeitar cova? (o esfomeado enjeitar comida); não faz nem pro fumo (quem ganha pouco); pode tirar o cabalo da chuva (pode desanimar); caiu no mato (rompeu compromisso); passou a manta (ludibriou em negócios); chover no molhado (repetir); comer barriga (perder oportunidade); quer que o mundo acabe em melado para morrer doce (pessoa acomodada); para espelho, tem tripa (quem fica na frente dos outros); um cu pra conferir (coisa difícil); lamber embira (estar na pior); botar a alma pela boca (ficar cansado); bater com a língua nos dentes (falar indevidamente); ver a vó por uma greta (passar maus momentos); sujeito amarrado pro rabo(bobo e bruto); trepar nas tamancas (dar bronca); não perde por esperara (promessa de vingança); levar na conversa (engambelar).

E agora os velhos (e sempre novos) ditados:
1 – anda a penca à procura do cacho.
2 – cai o muro, levanta-se o monturo.
3 – Deus consente, mas não para sempre.
4 – dia de muito é véspera de pouco.
5 – em cima da queda, coice.
6 – em tempo de murici, cada um cuida de si.
7 – feliz é a água do chafariz.
8 – guarde o que comer e não guarde o que fazer.
9 – louvor em boca própria é vitupério.
10 – morre o cavalo para o bem do urubu.
11 – na boca do mentiroso o certo se faz duvidoso.
12 – no frigir dos ovos é que se conhece a manteiga.
13 – o diabo endireita o nariz até entortá-lo.
14 – o prometer anda nas ancas do dar.
15 – ditos loucos, ouvidos moucos.
16 – panela gorda dispensa o toucinho.
17 – pé de galinha não mata pinto.
18 – pelas santas se beijam as pedras.
19 – quanto maior a nau, maior a tormenta.
20 – quem adiante não olha, atrás fica.
21 – quando se procuram porcos, até as moitas roncam.
22 – quem com porcos se mistura, farelo come.
23 – quem de mel se faz, as abelhas lhe lambem.
24 – quem é infeliz cai de costas e quebra o nariz.
25 – quem gaba o noivo é o burro do sogro.
26 – quem não bebe na taverna, folga nela.
27 – quem não pode com a mandiga, não inventa patuá.
28 – quem não se enfeita por si se enjeita.
29 – quem não tem cabeça escusa chapéu.
30 – quem o alheio veste, na rua o despe.
31 – o relógio do amor não dá horas.
32 – são mais as vozes do que as nozes.
33 – terra movediça não cria limo.
34 – quem pergunta se quer, não quer dar.
35 – a aranha vive é do que tece.
36 – quem não tem couro não faz trato com cuíca.
37 – quanto mais abaixa, mais a bunda aparece.
38 – o sapo não pula por boniteza, mas por precisão.
39 – quem toma a carapuça é porque lhe cabe.
40 – praga de urubu não mata cavalo gordo.
41 – na cacunda do tatu o tamanduá quenta sol.
42 – quem não pode com o pote, não põe a rodilha na cabeça.
43 – mais vale um gosto do que um carro de abóboras.
44 – quem conta um conto aumenta um ponto.
45 – tirar o papo sem ofender o pescoço.
46 –uns gostam dos olhos, outros da remela.
47 – bate na cangalha pro burro entender.
48 – o peixe morre é pela boca.
49 – colher vazia arranha a boca.
50 – cumbuca de pimenta não perde o ardume.
51 – em terra de sapos, andemos de cócoras.
52 – o orvalho não enche o poço.
53 – quem fala do diabo, pisa no rabo.
54 – quem tem cabeça de cera, não deve pô-la ao sol.
55 – em lagoa de sapo mosquito não voa baixo.
56 – os paus: uns nascem para santos, outros para tamancos.
57 – Deus dá o toucinho, o Diabo tira o jirau.
58 – a coruja é que gaba o toco.
59 – urubu sem sorte atola até nas pedras.
60 – erva ruim geada não queima.
61 – do pau torto até a cinza é torta.
62 – a casca é que engrossa o pau.
63 – o papagaio come o milho e o periquito leva a fama.
64 – mulher e vinho fazem o homem errar o caminho.
65 – o alheio chora o seu dono.
66 – o bom julgador a si se julga.
67 – vintém poupado, vintém ganho.
68 – cavalo velho, capim novo.
69 – se tem formiga na escada, tem doce lá em cima.
70 – Deus não dá asa à cobra.
71 – quem cabras têm, cabritos vende.