segunda-feira, junho 19, 2006

Jabuticabas Para JK

JABUTICABAS PARA JK (*)- Lázaro Barreto.


“Nas matas de Conceição e do Serro a jabuticaba é nativa,
dá no meio do mato, assim falava o boiadeiro de Joanésia.
É muito longe, eu disse ao Zuza, chofer do jipe land-rover.
“JK está na Barra Funda?”, um dos fazendeiros perguntou.
Em toda parte só se falava no binômio energia e transporte:
a estrada da vida enfim iluminada,
o peso da existência enfim aliviado.
“Pra ele carrego água na peneira, esfrego urubu até ficar
branco”, o chofer afirmava, cheio de nove-horas.
Ontem Prefeito,hoje Governador, amanhã Presidente:
assim era o JK
sem empáfia nas atitudes, nos gestos, nas palavras,
a deliberar sem coações, o sorriso nas idéias.
“Quem vive muito ocupado tem tempo pra tudo”, ele dizia.
Ele sabia ouvir muito e falar pouco e acertado!
Perdoava a irreverência de Assis Chateaubriand,
que dormia e roncava enquanto ele discorria sobre as metas
do governo, sobre a metodologia da aceleração administrativa:
os cinqüenta anos em cinco!

Seria um craque se jogasse futebol:
o ponta de lança desbravador
a correr pelo meio, a pedir bola e mais bola
o time a melhorar o padrão de jogo com os improvisos
a bola rasteira, subindo à meia-altura
a equipe mais popular mais veloz e mais vivaz
ele de gorro a sorrir depois do gol de cabeça
a pederneira no fuzuê das luxações.
Em Sabinópolis ainda se usa gravata no uniforme esportivo?
O tirambaço do Lelé rebentou mesmo o peito do Luís Borracha?
mas hoje a manhã está quente no inverno e ele quer
chupar as jabuticabas de verão:
como vamos conseguir nas quinze bandas da região?
Os camaradas das roças, os meieiros saberiam informar?
As pedras faiscam nas escarpas
o lobo deixa a sombra na relva íngreme
o caçador de relíquias rupestres tosse e escarra
entre tiros de carabinas e fisgadas de bagres.
“Estamos a procurar jabuticabas para o Governador”,
falei ao roceiro na porteira de Braunas.
Ele tirou o chapéu de palha, coçou a cabeça e disse:
“Será que outra fruta não serve? Gabiroba? Bacopari? Araçá?
Eu bem que precisava mandar um agrado pra ele...:
Vocês levam um capado, uma ovelha bem gordinha?”
Pensei no verde imenso que vi certa vez
bem adiante das casinhas de pau-a-pique
as minas novas de Deus,a moita de bambus.
“Onde o senhor acha que tem?”, perguntei ao semeador
que espontâneo abria a tronqueira da cerca de arame:
“Ainda não chegou o tempo”, ele disse,penalizado,
antes de se reintegrar nas monodias de sua tapera.
Lembro-me,outrossim,que a carta régia de 1701 proibia
qualquer comércio nos caminhos dos sertões...
Aí sem querer vi o galho de mangueira enfiado nas folhas
de outras árvores e parecia ora uma jibóia ora uma ave
de grande porte. Mas se não tinha voz, por que cantava
na esteira do valo das jurubebas e alfavacas?
“Se ver bica no terreiro,porco na manga”, dizia o chofer,
“se tem fumaça na chaminé, vento na bananeira,
pode saber que tem jabuticabeira na horta do quintal”.

O diabo é que não é tempo dela dar!”, ele exclamava,
temendo que nossa busca em nada redundasse.
O vento a limar as asperezas dos paredões
minutos recessivos gotejam dos parapeitos
terra de muitos corações e poucas árvores:
“Tem um sítio lá nas duas pontas do mato,
que é bem capaz de ter, apesar da lonjura
e do caminho esburacado”, informa o rapaz
montado num cavalo em pêlo.
Seguimos a estradinha relvada, de dois trilhos
o jipe a pular nos sulcos encapinzados
nossas cabeças batiam na capota do teto.
“Quando o Balduíno vem pagar os quintos?”
o fabriqueiro de pinga pergunta ao chofer,
que de longe já farejava os ardentes aromas.
“Se vai tomar, toma só um pouquinho”, pedi.
O jipe cambaleava nos buracos e ressaltos.
Para JK nada é impossível, ele dizia em confiança,
“até jabuticaba vamos encontrar neste deserto”.
Quem iria imaginar que um dia a paradeza deste lugar
ia ganhar a vida que está ganhando? Só não trabalha
nas obras quem não quer. “É Deus no céu e JK
na terra. Aqui ele remove até montanhas”, ele dizia
e redizia, otimista.
A água nos cascalhos musicava o calor solar:
os raios furavam os olhos das serras e dos vultos
informes de bichos contrafeitos nas fatídicas pirâmides
da linha dos mais próximos horizontes.

Vamos perguntar naquela venda, eu disse.
As horas passavam na volta do dia e nada de jabuticabas!
E se não conseguíssemos?
Já pensou na vergonha de voltar com as mãos abanando?
O vendeiro do casebre duvidava das próprias palavras:
“Nesta seca o tucano procura água até no miolo do pau
podre que ainda está de pé, mas pra Deus nada é impossível,
vocês vão indo, vão indo sem parar...,
naquelas biloscas tem uma fonte, a terra nela é preta e macia,
quem sabe lá vocês vão achar um pé carregado das pretinhas?”
A velha que cabeceava na varandinha lamentou:
“Quê dó não ter hoje nada de bom pra mandar”.
Mas os presentes dos roceiros já enchiam dois cestos!,
eu mesmo catei as biloscas em seus envelopes lacrados,
juntei as pedrinhas formais na vazante perto da fonte
e uma porção de coisinhas infantis da beira do mato,
que depois não tive coragem de entregar às meninas
Márcia e Maristela,
as risonhas filhas de Sara e Juscelino,
elas que corriam atrás de borboletas e vagalumes
nos arredores da Casa de Visitas, onde se hospedavam
toda vez que os pais visitam as obras da hidrelétrica.
Dona Sara era uma graça, primeiro olhava e ria
para depois falar
as mansas simplicidades lá dela, diamantina.

Quando regressamos às três da tarde, as frutas rebentavam
nigelas maduras bitelas no céu da boca.
O Governador de mangas arregaçadas, a gola desabotoada
a esfregar as mãos de satisfação
nos punhados da fruta de fina casca preta
a doçura interna dos olhos de bois
olhos das mocinhas brejeiras de outros arraiais.
Destampamos as cestas e balaios da traseira:
além das jabuticabas rebentando de tão maduras,
os mamões de quintais esfolavam-se docíssimos,
as laranjas também temporonas, os coquinhos vermelhos,
as gabirobas as mamacadelas os jambos e quiabos,
também dois pratos esmaltados de requeijão artesanal,
um litro de pinga das da cabeça, um cacho de bananas,
meia-dúzia de coités, um samburá de piteira novinho em folha,
finamente trabalhado em linhas bordadas.
Se pudesse, ele disse, eu ia lá chupar no pé,
que é muito melhor, ele dizia, sequioso.
“A fazenda do dono é boa?”, ele perguntou.
É nada, respondi. É uma casa de portais e adobes,
o chão seco do lado de cima,
a grota com a mina no lado de baixo.
“E as outras coisas que trouxeram?”,
ele perguntou, de boca cheia e olhos abertos.
São presentes deles , oferecidos de coração.
Ele rebentava as frutas no céu da boa, uma
atrás da outra, a cuspir as cascas pretas e os caroços
brancos, um atrás do outro – tudo se passava assim
ali no areiado terreiro do lado de fora da imponente
Casa de Visitas da Usina de Barra Funda.

(*) Fragmento do romance (em versos livres) inédito BARRA FUNDA – A Evaporação dos Paradigmas.