quarta-feira, julho 26, 2006

MACUNAIMA o heroi sem nenhum caráter

MACUNAÍMA o herói sem nenhum caráter - Lázaro Barreto.


Leitor inveterado de obras literárias e de ciências sociais, só agora estou lendo MACUNAÍMA o herói sem nenhum caráter, de Mário de Andrade (Villa Rica EditorasReunidas Belo Horizonte Rio de Janeiro 1997). Vi repetidas vezes o filme de Joaquim Pedro de Andrade, mas o livro nunca se me ofereceu nas livrarias (para aquisição) e nas bibliotecas públicas (para leitura). Só agora, num sebo do Portal do Morumbi, São Paulo, é que beneficiei-me com a ventura de adquiri-lo. E como acontece com os bons livros, estou a lê-lo devagarinho, prelibando e degustando as preciosidades lingüísticas com as quais Mario de Andrade narra as aventuras de sua saborosa tessitura romanesca. Impressiona-me sobretudo a acuidade profética do Autor ao prever no desarticulado personagem os indícios psicofísicos de outro herói, hoje guindado ao mais alto patamar do mandonismo realístico e não mais meramente fictício da nação.É só ler o livro e associar as atitudes dos dois heróis, ambos mancomunados dos manos e manas (companheiros e companheiras) nas desgraciosas e nefandas atitudes de fanar das árvores e das pessoas seus dotes e dons (as riquezas físicas do território e as riquezas morais das pessoas engambeladas e corrompidas). E fico pasmo na interrogação: é assim mesmo que a nacionalidade vai se degradar até chegar à última baixeza?

Diante das trapalhadas politiqueiras de nossa caótica realidade, fico pensando na comparação dos dois heróis, ambos ao que parece destituídos de todo e qualquer traço de caráter de grandeza: seria este um pensamento obtuso de minha parte? E o pior é pensar que o atual mandatário pode ser reeleito (pode ser reeleito assim impunemente?). Votei nele três vezes. Não só votei como fiz, a meu modo e no círculo de meus relacionamentos através da imprensa local, a propaganda (gratuita e espontânea) eleitoral dele, atritando-me às vezes, por isso, com amigos contrários ao que ele representava. E para ser resumido no que vou dizer, digo que nunca sofri uma decepção intelectual tão violenta como a que sofro com a desastrada gestão dele no mais alto cargo funcional da nossa empobrecida república. Não esperava que ele fosse tão curto e grosso, que virasse as costas aos intelectuais dignos que o apoiaram e deram consistência e respeitabilidade à sua campanha eleitoral junto à opinião pública, o que sem duvid possibilitou sua vitória, uma vez que agregou o aval da classe média à intenção de voto dos trabalhadores braçais. Mas o que aconteceu é que depois de eleito, ele trocou as mãos pelos pés, pela boca e pelo traseiro, danando-se a jogar bola farrear e andar de avião pelo mundo afora, como um turista subvencionado, deixando a parte administrativa da nação nas mãos de políticos corruptos, de militantes arrivistas – e aí se viu o espetáculo mais deprimente que se tem notícia nos anais de uma já secular carnavalização brasileira, tão bem prognosticada pelo gênio literário de Mário de Andrade ao retratar o herói sem nenhum caráter, que desarticula a normalidade das propostas e das ações sensatas e leva ao paroxismo mais desaforado o lema pragmático de levar vantagem em tudo e de professar e praticar a insidiosa convicção de que os fins justificam os meios, reinaugurando assim, decênios depois, o reinado macunaímico da desfaçatez, da corrupção, do descaramento, da balbúrdia e da entrega da lei aos mandriões irresponsáveis, conseguindo, assim, o triste e lamentável espetáculo da assunção do crime organizado aos trâmites do primeiro plano de nossa boquiaberta nacionalidade.

No oitavo parágrafo do Epílogo do livro estão as cabalísticas palavras marioandradianas: “A tribo se acabara, a família virara sombras, a maloca ruíra minada pelas saúvas e Macunaíma subira pro céu, porém ficara o aruaí do séqüito daqueles tempos de dantes em que o herói fora o grande Macunaíma imperador. E só o papagaio no silêncio do Uraricoera preservava do esquecimento os caso e a fala desaparecida. Só o papagaio conservava no silêncio as frases e feitos do herói.”

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

mas quem que escreveu o livro???
foi lázaro barreto ou mário de andrade??
vcs podem responder??/
obrigada!!!!!!

3:51 PM  

Postar um comentário

<< Home