domingo, agosto 06, 2006

Ulisses, de James Joyce

ULISSES, DE JAMES JOYCE (*) - Lázaro Barreto.

(Perambulação de Leopold Bloom, sua mulher Molly e Stephan Dedalus no único e corriqueiro dia 16 de junho de 1904 pelas ruas de Dublin).

Escrito em 1914-1921 e publicado anos depois e logo interditado pela censura, o livro ULISSES, de James Joyce, foi traduzido por Antônio Houaiss e publicado pela Editora Civilização Brasileira em 1966, ano que adquiri, li e incorporei (timidamente, no subconsciente) a terminologia da estranheza na minha suada e interminável aprendizagem literária. É uma obra marcante, uma espécie de ressurreição da ODISSÉIA de Homero, com a nova gama de linguagem e de comportamento dos novos tempos. É uma espécie de floresta amazônica, um oceano atlântico, uma lua virgem mesmo depois de penetrada. Uma lua?, eu disse? Eis o que está na página 745:

“Que afinidades especiais lhe pareciam a ele existir entre a lua e a mulher? Sua antiguidade no preceder e suceder a sucessivas gerações telúricas: sua predominância noturnal: sua dependência satelítica: sua reflexão luminária: sua constância sob todas as suas fases, levantando-se, e pondo-se em seus tempos designados, inchando e minguando: a invariabilidade forçada de seu aspecto: sua resposta indeterminada a interrogação afirmativa: sua potência sobre águas efluentes e refluentes: seu poder de enamorar, de mortificar, de investir de beleza, de tornar insano, de incitar e estimular delinqüência: a inescrutibilidade tranqüila de sua visagem: a terribilidade de sua isolada ominante implacável resplendente proquinquidade: seus ômines de tempestade ou de calma: a estimulação de sua luz, de seu movimento e de sua presença: a admonição de suas crateras, seus mares áridos, seus silêncios: seu esplendor, quando visível: sua atração, quando invisível”.

Não é trecho de extensa, sonora, de transtornante poesia? Transborda nas palavras e no entanto é sintético como se de repente o mundo coubesse na palma de nossa mão. É para o leitor ter uma idéia. Trata-se apenas de um parágrafo da página 745 – e o livro tem 849 páginas compactas. A obra (como a homérica inspiradora) é uma espécie de muralha inexpugnável, um bloco maciço e coeso ao mesmo tempo de carne e osso, de pedra e flor, de água e perfume, de brilho e treva, de dor e prazer, de tudo enfim que um grande e belo coração humano é capaz de conceber e suportar.É uma diferente morada do sol e da lua e quem não entra nela não sabe o que está perdendo.

Lembro-me que passei as férias inteirinhas lendo o calhamaço na aprazível Marilândia daquela época. Li sentindo a possessão de uma carga literária diferente. Se na ficção de Dostoievski o que mais me perturbava era o derramamento da alma na resposta à purgação dos pecados do corpo, agora o que me afligia e me instigava era o derramamento das palavras na (re)criação de formas de viver e de (re)contar a vida. No esforço de recalcar (sofrer o impacto, aprendendo) a epopéia moderna do cotidiano de todas as pessoas e em todas as partes do mundo, acabei tentando versificar o monólogo feminino da parte final do livro. A tentativa é de 1966. Tentei melhorá-la agora, mas não consegui. Passo-a aos leitores desta coluna do Jornal do Poste, nas edições de hoje e de amanhã, conforme segue:

O Monólogo Feminino (de Molly Bloom, pág. 845 e seguintes):

Eu adoro as flores
eu ia adorar ter a casa nadando em rosas
Deus do céu não tem nada com a natureza?
as montanhas bravas então
o mar e as ondas correndo?

Então a bela campina com campos de aveia e trigo
e todo tipo de coisas
e todo gado viçoso andando por ali
Que ia ser de fazer bem ao coração
de ver rios e lagos e flores
todas as espécies de formas e cheiros
e flores brotando mesmo das regazinhas
Primaveras e violetas: é a natureza
é o que é
Quanto a esses que dizem que não há Deus
eu não daria um vintém de mel coado
pela sabedoria deles
Porque que é que eles não vão e criam alguma coisa
eu muitas vezes pergunto a eles, ateus ou como quer
que eles se chamem
que vão se lavar do ranço deles primeiro
depois tocam a gemer por um padre
quando estão morrendo
e porque ficam com medo do inferno
por causa da má consciência deles
ah sim eu conheço eles bem
quem foi a primeira pessoa no universo
que fez tudo? quem? ah isso eles não sabem
nem sei eu mesma
eles podem impedir que o sol se levante amanhã?
O sol brilha para você, ele disse
no dia que a gente estava deitado entre os redodendros
no cabeço do Howth
no terno de tuíde cinza e chapéu de palha dele
o dia que levei ele a se propor a mim
sim primeiro eu dei a ele um pouquinho
do bolinho-de-cheiro de minha boca
depois desse beijo longo eu quase perdi a respiração
sim ele disse que eu era uma flor da montanha
sim! assim a gente é uma flor
todo o corpo de uma mulher
sim! essa foi uma coisa verdadeira que ele disse na vida dele
e o sol brilha para você hoje
isso porque eu via que ele entendia ou sentia
o que é uma mulher
e eu dei a ele todo o prazer que eu podia
levando ele até que ele pediu para dizer sim
e eu não queria responder
só olhando primeiro para o mar e o céu
eu estava pensando em tantas coisas
as garotas espanholas se rindo nos xailes
os gregos e os judeus e os árabes e o diabo
sabe quem mais
de todos os confins da Europa
dos burricos escorregando meio dormidos
e os sujos vagos nas mantas dormitando
na sombra dos degraus e as rodas grandes
das carroças de touros
aqueles mouros bonitos todos de branco e turbante
como reis
pedindo a gente pra sentar nas lojinhas pequeninas deles
e as bodegas de vinho meio-abertas à noite
e as castanholas
e a noite que a gente perdeu o bote em Algeciras
o vigia indo por ali sereno com a lanterna dele
e oh aquela tremenda torrente profunda
oh e o mar
o mar carmezim às vezes como fogo
e os poentes gloriosos
e as figueiras nos jardins da Alameda
sim e as ruazinhas esquisitas
e casas rosas e azuis e amarelas
e os rosais e os jasmins e gerânios e cáctus
e Gilbratar
e eu mocinha onde eu era uma flor da montanha
sim quando eu punha a rosa na minha cabeleira
como as garotas andaluzas costumavam
eu devo usar uma vermelha
sim e como ele me beijou contra a muralha mourisca
e eu pensei tão bem pedir de novo
sim e então ele me pediu quereria eu
sim dizer sim minha flor da montanha
e primeiro eu puz os meus braços em torno dele
sim eu puxei ele
para ele sentir meu peito todo perfume
sim o coração dele batia como louco
e sim eu disse sim eu quero
Sins!

(*) texto publicado no Jornal do Poste (Divinópolis, MG) em agora não lembrado dia e mês do ano de 1997.

ANEXOS

1) Penélope na Cama (página 787):

“Satisfação ante a ubiquidade nos hemisférios oriental e ocidental, em todas as terras habitáveis e ilhas exploradas e inexploradas ( ) de hemisférios adiposos posteriores femininos, redolentes de leite e de calor excretório sanguíneo e seminal, reminiscentes de famílias seculares de curvas de amplitudes, insusceptiíveis de modos de impressão ou contrariedades de expressão, expressivos de muda inundável madura animalidade.

Os sinais visíveis de anti-satisfação?
Uma erecção aproximativa: uma adversão solícita: uma elevação gradual: uma revelação tentativa: uma contemplação silente.
Depois?
Ele beijou os fornudos ricudos amareludos cheirudos melões de seu rabo, em cada fornido melonoso hemisfério, na sua riquêga amarelêga, com obscura prolongada provocante melonicheirosa osculação.
Os sinais visíveis de pós-satisfação?
Uma contemplação silente: uma velação tentativa: uma abaixação gradual: uma eversão solícita: uma erecção próxima.
Que seguiu essa ação silente?
Invocação sonolenta, recognição menos sonolenta, excitação incipiente, interrogação catequética.”

2 – A Minha Flor da Montanha de Joyce - Lázaro Barreto, 2006.

Quando ela vem onde espero
é o céu que na terra se funde
é o dentinho de leite
a ruguinha na fronte
a mecha de cabelos nas costas
o cheiro suado do amor
o cheiro suado do amor
o cheiro suado do amor.

Se morde ou lambe os beiços
se coça a bunda sem adereços
não sei o que me acontece
nas campinas da infância
nos ocasos posteriores
na instância da pressão alta.