quarta-feira, dezembro 02, 2009

LITERATURA: DOIS PONTOS. - Lázaro Barreto.


1 – Respaldos de Uma Entrevista.

Pergunta: O que mais o leva ao exercício de escrever?
Resposta: A tentativa de conseguir pelo menos algumas respostas para a avalanche de perguntas que me assaltam quando estou polemizando comigo mesmo.

Pergunta: Prefere a Poesia ou a Prosa?
Resposta: Visando mais o conhecimento ontológico, a ciência do ser e do estar na vida e no mundo, estou sempre derivando para o lado da poesia, que é mais atraente porque é mais misterioso. Ao procurar respostas, o que mais encontro são as perguntas – e assim envolvo-me indefinidamente.

Pergunta: Isso é interessante, divertido? Não é apenas embaraçoso?
Resposta: É um jogo no qual você não perde, só tem a ganhar.

Pergunta: como assim?
Resposta: Pensa bem. O que é bom não acaba. Qualquer poema é apenas um começo, um passo no terreno infinito da poesia. Nele toda linha reta encurva imperceptivelmente. Assim, quando começo não posso parar. Estou sempre recomeçando.

Pergunta: Mas há uma distinção entre o verso e a prosa, muito grande, não?
Resposta: A composição intrínseca da poesia e da ficção é a mesma. O que diferencia é a expressão. A poesia é mais comprimida, a ficção é mais dilatada.

Pergunta: como assim?
Resposta: No meu trabalho às vezes misturo as expressões, instintivamente. Se estou, por exemplo, utilizando a prosa poética na escritura de um conto ou de um romance, quando dou fé no que estou fazendo, sinto que estou empregando versos brancos, que não são propriamente os da verdadeira poesia. São trechos diferenciados da prosa. Assim procedo porque, no momento da escrita, a temática está a exigir uma forma versificada de expressão. O trecho resultante não é um poema, que é uma roça peculiar, de outros lavradores. Apenas uso uma ferramenta mais elástica, fluente e legível, no pormenor daquele contexto

Pergunta: A poesia tem prioridade, então?
Resposta: Creio que a poesia está sempre em seu estado original ao alcance das vocações mais persistentes. É preciso namorá-la, amá-la. Só assim pode resultar uma espécie de gênesis literária no aprendiz. Só assim o autor, ao escrever, faz perguntas a si mesmo sobre o que possa representar para ele o que ele já viveu – e o que ainda vai viver. Haja tempo e paciência para destrinchar o cabedal de idéias e de sentimentos através do melindroso e fascinante jogo do vocabulário. A poesia é a voz e a grafia da piedade humana.

Pergunta: Tudo bem, então?
Resposta: Sinto-me feliz porque alimento um volumoso leque de opções sentimentais e pensamentais. O que, pelo menos, livra-me do tédio e da inação.


2 – Ressonâncias Proustianas (da leitura de “A Sombra das Raparigas em Flor”, tradução de Mario Quintana, editora Globo, 1999).

Marcel Proust é mestre em aproveitar, ou seja, em discernir, captar, avaliar as idéias adjacentes de um contexto rotundo, validando para além do pressuposto cada linha da página. A impressão que se tem é que ao ler as páginas torrenciais de suas revelações embutidas na obscuridade, ele dá voz aos pormenores de um enredo, contando principalmente o que nas mãos de um outro escritor seriam as pausas, os hiatos, o que fica na surdina ou na supressão, por não ser relevante. Para ele, Proust, aí é que reside a relevância: no hiato, no subentendido, ou seja, nas pequenas coisas que produzem as COISAS. Isso quer dizer, que na verdade a HISTÓRIA não tem fim.

Mais do que a beleza técnica da arte arquitetônica é a da natureza em si mesma, é o que ele diz na página 258, diante de uma igreja em Carqueville, toda coberta de hera: ”...então vinha um pouco de vento e fazia estremecer todo o pórtico, que se enchia de ondulações trêmulas e a fachada, toda trêmula, arrastava afagadoramente atrás de si os pilares ondulantes e fugidios”. Na página 207 vemos a camponesa do café com leite na estaçãozinha da parada do trem de ferro: seu rosto é mais rosado do que o céu, inspira o desejo de viver que renasce ao recuperarem a consciência da felicidade da beleza – o caráter da coisa nova. Como um belo livro, particular e imprevisível, diferente dos outros.

Na página 268, leio: “O instinto inconscientemente ameaçado pelos nervos e pela mórbida tendência para a tristeza e o isolamento...coloca em primeiro lugar as faculdades de ponderação e de juízo...(...)..., e proporciona mais ventura e dignidade na vida do que os refinamentos opostos, que levaram um Baudelaire, Um Poe, Verlaine ou um Rimbaud a sofrer penas e desconsiderações...”. E na página 282: “Descobrir a verdadeira vida do próximo, o universo real sob o universo aparente, nos causa tanta surpresa como visitar uma casa de insignificante aparência e encontrá-la cheia de tesouros, de gazuas ou cadáveres”.