sábado, julho 10, 2010

DOCE PÁSSARO DA JUVENTUDE (*) - Lázaro Barreto.


O quintal de minha casa, bem extenso e todo arborizado, perto do rio e desfrutando de subterrânea umidade e não longe de uma siderurgia com seus altos fornos fumegando a irreparável sujidade, é um celeiro de pássaros sobreviventes de toda uma região desmatada, ou seja, transformada em carvão para os fornos da rude siderurgia. Os cantos e vôos sobre a casa e no meio das árvores do quintal e nas folhas que encobrem o chão-viveiro de minhocas. Fico às vezes arremedando em assobios os cantos e piados dos bentivis e sabiás e rolinhas, atraindo a plêiade deles que freqüenta as árvores e mesas de cimento-armado e o chão onde se fartam de frutas, rações e minhocas.

Fico lembrando de minha infância rural, vivendo numa espaçosa casa, com as portas da frente dando para uma rua toda gramada e arborizada e as dos fundos abrindo-se com as janelas para o denso e extenso quintal de múltiplo e diversificado arvoredo. O pomar na parte de cima, com as bananeiras, laranjeiras e mexeriqueiras, os trinta e cinco pés de robustos e altaneiros pés de jabuticabas, as mangueiras de várias qualidades, os cajueiros, um jambeiro e uma parreira de uvas, as pitangueiras, articunzinhos e ameixeiras, pés de limas, limões e romãs – e dezenas de pés de café, sem falar nos lugares destinados ao paiol dos mantimentos, no galinheiro com os varais de pouso e no chiqueiro para a engorda de capados, além dos porões de nossa casa e da de minha avó paterna, ( uma casa imensa e abandonada). Uma festa para a meninada amiga da gente e também para os pássaros e aves servidos de comida com fartura. Foi lá, naquele tempo, que aprendi arremedar os pássaros nos cantares chamando chuva no tempo da seca e sol no tempo das águas. A parte de baixo do quintal era destinada ao plantio e colheita de milho, feijão, abóboras, favas, quiabos e outras verduras.

Era bom e útil aprender com os passarinhos os cantos da existência, livre e desprendida, fugaz e constante ao mesmo tempo em todas as horas do dia, desde o romper da madrugada até o escoar da claridade solar, quando a lua e as estrelas do nosso descanso adormeciam a faina vivencial dos seres e das circunstâncias.

A parte do lado de fora da casa, vinha a rua larga e repleta de magníficas magnólias e bilosqueiras: era outro pedaço do pequeno paraíso de nossa terra. Os passarinhos do quintal e da rua voavam, saudáveis, pousavam e cantavam em contínuas revoadas. Fico lembrando das andorinhas, dos sabiás, pássaros-pretos, pardais, rolinhas brancas e escuras, tico-ticos, canarinhos e pintassilgos, curiós, as siriemas, as trocais, os jacus, os urubus, os azulões, acauãs, papagaios, periquitos, maitacas, joão-de-barros, pica-paus, beija-flores e, mais longe dali, no valo do quintal e na capoeira da Fontinha, as juritis e os nhambus, os sanhaços e gaviões, os curiangos, as perdizes, os chamados frangos d’água, os paturis e tantos outros de nomes agora esquecidos. Lembro-me que, infelizmente, os mais robustos (carnudos) e também os mais canoros era perseguidos, atraídos e presos em laços de barbante, alçapões de bambus, arapucas e visgos por pessoas (adultas e crianças) de maus bofes, como se diz. Mesmo assim a passarada era uma festa nas redondezas do arraial e não apenas nos fundos de nossa casa. Nas matas adjacentes dos lugares chamados Buracão, Presa, Fonte Grande, Fontinha, Corgo Areiado, Narciso, Lavapés, Volta do Brejo – e também nos capões de mato e nas capoeiras das quinze bandas: em todo lugar da roça a vida era muito natural, ninguém castigava ou destruía a parte animal e vegetal da vida animal, exceto os caçadores, pescadores e açougueiros e também as donas de casas matadeiras de frangos e galinhas. Depois, anos depois, foi que em nome de um pretendido e contundente desenvolvimento civilizatório que a paisagem está assim desertificando, o solo esterilizando, o ar intumescendo, tudo isso a demarcar o primado da poluição planetária.

Depois dos males veio pior: o êxodo rural e assim os sítios e fazendas viraram chácara de lazer para o repasto dos finais de semana dos comerciantes e industriários e empresários e políticos dos centros urbanos. Tornaram-se meros viveiros de novas riquezas e pobrezas. Assim como que expulso de meu gostoso e inocente habitat, fui para bem longe, envolvendo-me em outros aprendizados, por critérios de vocação e de necessidade. Corri mundo, anos a fio, armazenando vivências de estímulos e de aflições. Vi e senti a diferença ente o realismo e a fantasia, ferindo-me mais do que deliciando-me com o que o mundo podia oferecer-me longe da inocência das árvores, das aves, dos animais e das pessoas abençoadas pela poesia da natureza, agora tão mutilada em sua pureza. Haja Deus!

2 Comments:

Blogger Evaldo said...

Pois é, senhor Lazaro Barreto, também tenho saudades dos ídos tempos de minha infância. Embora concorde com o progresso, repudio a voracidade com que transformaram a nossa sociedade rural, dizimando as coisas mais belas da natureza. O êxodo rural, sem dúvida, tranformou nossas vidas, trazendo-nos novas experiências, mas nos encheu de perplexidade, alijando-nos da desejada solidariedade humana. Ao ivés disso, violência urbana, e destruição da natureza.

2:56 AM  
Blogger JOSÉ ROBERTO BALESTRA said...

Lázaro, o que a saudade não faz com a gente, não? E ela, a saudade, é que nos move pra frente, empurrando-nos pr'outros dias bons ou de nem tanto, mas que no novo porvir d'amanhã serão por nós olhados da mesma forma, com saudável saudade.

Adorei sua essa crônica de reminiscências! abs

9:46 PM  

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