segunda-feira, julho 05, 2010

PONTOS DE ATRITOS NA LITERATURA - Compilação de Lázaro Barreto.


- Não havia anormais quando a homossexualidade era a norma, nem anticristão antes de Cristo.... Uma disposição inata de alguns, repugna aos outros, mais do que certos vícios que se contradizem, como o roubo, a crueldade, a má fé.... – Marcel Proust, em “Sodoma e Gomorra”, pág. 33, trad. de Mário Quintana, Edit. Globo, 2008, São Paulo, SP.

- Caim e Abel: os dois irmãos fizeram suas devoções e cada um ofereceu em oblação os produtos de seus trabalhos. Caim, sendo agricultor, sacrificou os frutos e os cereais, enquanto o pastor Abel ofereceu cordeiros e sua gordura. Ora, Jeová virou às costas às oferendas de Caim e aceitou as de Abel. Por que? Por qual razão? Não vejo senão uma: porque Jeová detesta legumes e adora carne! - Michel Founier, em “Contando Histórias”, org. de Nadine Gordiner, pág. 211, trad. de José Rubens Siqueira.

- - Tia Regina era religiosa, praticava a virtude – mas com a intolerância de um Torquemada. Tio Luís e Tio Júlio eram dois violentos, dois brutais, o primeiro pouco, o segundo muito inteligente – ambos de uma lubricidade exemplar. Minha avó Maria Luíza, que foi mãe admirável, sogra execrável, sinhá odiosa para os escravos e crias, amiga perfeita de poucas, inimiga não menos perfeita de muitas e corajosa como um homem – era de boca insolente e bofetada fácil. Te quebro a boca, negra. E quebrava.” – Pedro Nava, em “Baú de Ossos, pág. 186, Editora Giordano, SP, 2002.

- - “Senhor – redargüiu Sancho -, se Vossa Mercê entende que não sou capaz para este governo, já o largo, eu quero mais a uma unha da minha alma do que a todo o meu corpo; e tão bem me sustentarei Sancho a seco com pão e cebolas, como Governador em perdizes e capões, e, além disso, enquanto se dorme todos são iguais: os grandes e os pequenos, os pobres e os ricos; e repare, senhor meu amo, que quem me meteu nisso de governar foi Vossa Mercê, que eu lá de Governo de ilhas nunca entendi nada; e, se acaso se persuade que por ser governador me há de levar o Diabo, antes quero ir Sancho para o céu do que Governador para o inferno. - Miguel de Cervantes em “Dom Quixote”, trad. de Viscondes de Castilho e Azevedo, Edit. Abril Cultural, SP, 1978.

- O ser humano não está provido de todos os sentidos que existem na natureza.... Muitos animais vivem bem, sem enxergar e sem ouvir.... Quem pode dizer se por isso (os animais) não têm vida mais plena e satisfatória que a nossa?... Em conseqüência de algum sentido específico os galos distinguem a hora, pela manhã e à noite, e cantam. E que as galinhas temem o gavião, antes de qualquer experiência e não receiam nem o ganso nem o pavão de estatura muito maior; e que os frangos sabem da hostilidade do gato e não desconfiam do cão, tremendo ante o miado harmonioso e não ante o latido áspero; e as formigas, as abelhas e os ratos escolhem sempre o melhor queijo sem antes provar; e o veado, o elefante, a serpente conhecem ervas que curam. – Michel de Montaigne, em “Ensaios”, páginas 272 e 273, Edit. Abril Cultural, SP, l980, trad. de Sérgio Milliet.

- Nascemos inocentes (a moça escreve), sofremos terríveis desilusões antes de ganharmos experiência e, depois, tememos a morte... E nos são concedidos apenas fragmentos de felicidade para compensar o sofrimento. (Philip Rotth, em “O Professor de Desejo” pág. 80, Edit. Círculo do Livro, SP, 1977, trad. de Gabriella Mendonça Taylor.

- Raskólnikov (personagem central do romance “Crime e Castigo”): E a senhora se lembra, mamãe, que estive apaixonado e quis me casar com Sonia? E que é que eu lhe disse a respeito? Quase me esqueci de tudo. Ela era uma mocinha enfermiça, acrescentou, pensativo, abaixando os olhos, e até mesmo sofredora. Queria ser irmã de caridade, entrar para um convento. Um dia chegou até a se derreter toda em lágrimas, falando-me disso. Sim, sim, lembro-me sempre... Ela era feia... Não sei, na verdade, por que me prendia a ela... Parece-me que, se fosse corcunda ou capenga, a teria amado ainda mais. Do citado romance de F. M. Dostoievski, José Olimpio Editora, RJ, 962, trad. de Rosário Fusco, com agradecimentos a Guimarães Rosa).

- Uma amiga que tenho veio um dia fazer a feira aqui defronte de minha casa. Mas estava de short. E um feirante gritou-lhe- “Mas que coxas! Que saúde!”
Minha amiga ficou danada da vida e disse-lhe:
- “Vai dizer isso para aquela que o pariu!”
O homem riu, o desgraçado. – (Clarice Lispector em “A Via Crucis do Corpo”, pág. 50, Edit. Rocco, RJ, 1998.