quarta-feira, julho 14, 2010

A JUVENTUDE AINDA QUE TARDIA DE DOM QUIXOTE – Lázaro Barreto.

À memória de Sebastião Benfica Milagre.


À semelhança dos antigos moradores do arraial mineiro,
que não comiam nada amanhecido
(duros na queda, eles eram!),
que pediam água à mulher na janela:
não pela água, mas pela formosa mulher,
assim Ele,
já senil e débil, reassume a juventude possuído de nova força
e de renovada lucidez.

Pertinaz enamorado da virtude,
ei-lo a procurar as ínvias regiões agrestes, oferecendo justiça
e socorro aos desvalidos e necessitados.
Assim,
mesmo moído de pancadas e calúnias, nunca se rende aos vilões.
Montado no rocinante trotão e cochilento,
ele,
flor e espelho da cavalaria andante,
açoite incansável aos detentores da maldade,
afrontador de perigos, desfazedor de agravos,
assombro dos gigantes, amparo dos inocentes,
ei-lo,
às vezes com os miolos já minguados,
a investir contra os moinhos de vento,
e
por engano
contra as pias procissões dos penitentes,
às vezes arvorando o bordão, manejando os golpes
contra os bandidos das quinze bandas,
inspirado, ah! inspirado pela doce beleza de Dulcinéia.
Ah!
Assim ele esmaga os endriagos e as serpentes,
não poupa a vida, para ganhá-la.