quarta-feira, janeiro 19, 2011

O Desespero das Pessoas

O DESESPERO DAS PESSOAS - Lázaro Barreto.


A Incúria Governamental.
A fé perde a autenticidade e se torna apenas uma espécie de vício automático – e o nome de Deus passa a dito e repetido em vão, dando a entender que Ele realmente não existe como o todo poderoso que pode mover céu e terra para favorecer e não para
prejudicar.

A incúria, o desleixo, a irresponsabilidade dos políticos profissionais que não sabem prever a causa dos desmandos nem reparar, devidamente, a ocorrência trágica deles... De braços cruzados eximem-se da responsabilidade, e lamentam com lágrimas de crocodilos o resultado de suas cruéis insinceridades. Em Divinópolis, por exemplo: quem não vê que o rio está cada vez mais raso, entupido de lixo, indicando abertamente sua capacidade de gerar catástrofes? E o que se faz com o dinheiro público? Uma mão de areia em cima das rachaduras e outra de cal para ludibriar a opinião pública – enquanto o perigo da tragédia é apenas aliviado... Os exemplos dos torrenciais deslizamentos de Santa Catarina, Angra dos Reis, Morros Cariocas, foram lamentados e chorados na época – e depois esquecidos.

E agora? Agora ficamos horas e horas, estarrecidos, diante di aparelho de televisão, constatando que a transmissão dos gritantes desesperos da natureza e das pessoas estavam sendo copiosamente mostrados e explicados ao público, ao mesmo tempo que realçava, honestamente, a ausência de explicações do poder público e as devidas tentativas de corrigir ou pelo menos amenizar a furiosa violência dos continuados desenlaces focalizados. Como entender por que a televisão chega aos lugares acidentados, aponta os detalhes dos malefícios, as causas, efeitos, possíveis soluções – e o pessoal encarregado de representar o poder público não oferece a face para assumir culpas e apontar providências cabíveis? Por que tanta ausência e silêncio diante das vítimas boquiabertas e desesperadas? Os recursos e as providências só chegarão depois de tudo consumado? Enquanto isso os corpos das vítimas mortais amontoam-se dentro de um caminhão frigorífico (?!?) – e os destroços entopem as ruas e estradas – e os sobreviventes correm de um lado para outro como galinhas tontas, de mãos atadas e os pés escorregando nos monturos de lixo e lama, na água barrenta que levam tudo (a fé, o amor, a misericórdia, a esperança) de roldão, realçando o despreparo da administração pública para fazer o que é certo e necessário. Não serve (não consegue) nem mesmo prever o mal que longamente se anuncia e prontamente se despeja sobre os seres humanos até então confiados, ingenuamente, e agora completamente estarrecidos? E as cenas dantescas são passadas e repassadas à exaustão nos canais televisivos, arrancando as sinceras lágrimas do estarrecimento de milhões de pessoas de outras regiões. Lágrimas seguidas de previsões pessimistas: quem está realmente seguro, vivendo em qualquer parte de um país desavisado, dirigido pelas forças do mal da corrupção completamente institucionalizada?

Vendo a Morte Por Uma Greta.
As imagens são impressionantes, terríveis. A morte em todos os recantos do cenário, com os dentes e as garras afiadas, a impiedade em riste indomável. Um céu de cóleras acumuladas, despejando o aguaceiro em tonéis consecutivos, avassalando o matagal, as pedreiras morro abaixo em ímpetos inomináveis, desumanos, massacrando os barrancos, a vida até então airosa na empírica fusão dos animais e vegetais inocentes e magníficos. Atropelando o paupérrimo casario humano das famílias deserdadas da sorte, ali indevidamente ocupando o único espaço disponível. O impacto doloroso é inexprimível em termos normais de expressão verbal. Aquela avalanche trepidante e desordenada, arrancando e envolvendo e arrastando a vegetação e as casas e casebres com seus moradores, víveres, trastes e animais domésticos...: amassando, enrolando e esmigalhando tudo na descida vertiginosa dos morros e nas baixadas alargadas e alagadas, no meio daquela massa de cadáveres de vegetais e de animais, entre os quais muitos seres humanos, agora ainda mais desvalidos, espatifados e misturados aos detritos dos casebres antes dependurados nas encostas e agora massacrados nos vales esbarrancados. Espetáculo terrível – o retrato fiel do desgoverno nacional, ainda agora mais preocupado no loteamento dos cargos privilegiados aos pilantras fisiológicos, contumazes dilapidadores do erário e da moral no desolado e lacrimoso país de nossa humilde convivência.

Imagens Inamovíveis da Memória.
1 – O gato salvando-se de dentro do casebre que se desmancha em pleno caudal da enchente, nadando às pressas e, sem dúvida, apavorado.
2 – A mulher já idosa que se amarra numa corda, abraçada ao seu cão de estimação e que é içada por populares de cima de um barranco. As ondas avassaladoras roubam-lhe o cachorro de seus braços, mas ela consegue salvar-se, graças ao próprio desprendimento à coragem e também à bondade de seus semelhantes ali solícitos.

1 Comments:

Blogger JOSÉ ROBERTO BALESTRA said...

Lázaro, suas palavras de desabafo tocam-me demais, e geram minha reação: todos os governos deste país não tem culpa pelas águas da chuva que cai do céu, mas se tornam dolosamente responsáveis pela falta de domínio delas já nos chãos e vales...

Como diria minha nona, nascida em Rovigo (Itália): - "Gli uomini e le donne dei governi molto sono istruiti davanti ai microfoni ed alle macchine fotografiche della televisione, ma in quella profonda sono tutti i ladri… dei sogni della relativa gente!"

Abbraccio.

8:02 PM  

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