quarta-feira, janeiro 19, 2011

A Poesia é Necessária

A POESIA É NECESSÁRIA - Lázaro Barreto.

I - Ilações de Leitura.

Os pais e as mães são para os filhos os mesmos brigões intratáveis em todos os tempos e em todos os lugares, salvando-se óbvias exceções? Henry James é minucioso, consegue granjear os aperitivos da boa refeição, ou seja: é no emaranhado das minudências palavrosas que ele descobre, aninha e destaca as jóias e as flores do entrecho, justificando e aprimorando a trabalhosa conquista do estilo cativante de sua literatura. Não despreza nem suprime os lugares comuns da vida dos personagens. Descreve e narra sem enfatizar os pontos altos e os pormenores, como se para ele não houvesse diferença entre os grandes e pequenos fatos, todos merecendo idênticas acentuações, insinuando que os grandes momentos são intuídos e gerados de pormenores instantâneos. Nada se cria nada se perde, tudo se aproveita – parece afirmar em todas as linhas de todas as páginas. Durante muito tempo ele foi considerado pela mídia internacional como o irmão do filósofo William James, famoso por introduzir na cultura norte-americana os fundamentos do pragmatismo, uma espécie de vulgarização do argumento filosófico mediante a fórmula plausível de levar o conhecimento retórico ao alcance de todos das pessoas. Henry preferiu viver na Inglaterra e adotar a ficção como norma de trabalho, valorizando a linguagem de forma cavilosa, sutil e engenhosa.

Na página 217 do romance PELOS OLHOS DE MAISIE (Cia, das Letras, SP 2010 tradução de Paulo Henriques Britto) fico bobo de ver (sendo um mero leitor, claro) como a cândida criaturinha inefável consegue segurar as pontas de sua vidinha no vai-e-vem de herodes a pilatos, ou seja, repartindo a convivência com mãe e madrastas, pai e padrastos, todos de ordinária compleição, uma seqüência de adúlteras e piranhas, rufiões e trapaceiros. Assim envolvida no roldão das artimanhas de seus “protetores”, ela segue o destino da tenra mobilidade dos caminhos escusos, sem se deixara contaminar, ao contrário, conservando a inocência, a pureza do amor mais infantil possível. Na página 280 ela já sabia tantas coisas extraordinárias que, o que não sabia parecia ridículo, se não fosse constrangedor. Síndrome de gente grande? Não nada disso. Ela não passava de uma criaturinha prodigiosa: “parecia receber informações novas com cada sopro de brisa”. Ela puxava um fio longo e tenso, no qual as valiosas pérolas estavam enfiadas com todo o cuidado. Outras imagens, conceitos e metáforas que saltam das páginas:
- O rio azul da verdade vira um esgoto de vez em quando?
- O casamento não passa de um local de brigas e mais brigas?
- As portas fechadas da vida, ah!...
- O parque iluminado no rosto dela torna-se um conforto no sofrimento, a vidraça de uma confeitaria do saber, os olhos como lanternas (o olhar como um lampião numa janela). Seu encanto era uma grande explicação.

2 – Marilândia, Vila Imaculada (fragmento).
Sete Poemetos, em passant, de Paulo Bernardo Vaz, na década de 70, quando ele criava obras de arte vanguardista em Divinópolis, antes de estudar na França (pós-doutorado em Comunicação) e lecionar na UFMG, BH.

I – O ônibus passa forasteiro
cheio de olhos e janelas
espiando o que resta tranqüilo
nesse mundo confundo.
Benza-o, ó Deus.
II – Chegue-se até o fim da rua,
que é o seu princípio.
Dá a volta na porta da igreja,
de costas para a civilização de frente pro sertão.
Volta-se pelo outro lado da rua,
que é frente para a mesma rua.
O mapa é um rosário.
Projeto urbano do engenheiro Deus.
III – Aberto o dia,
aberta a porta da rua.
Benvindos todos
os que se aprochegam.
Livre trânsito dentro e fora das casas.
Passe livre ao mundo.
IV – As cadeiras, os tambores, os bancos
de madeira bruta, couro, plástico,
varetas, pano, latão e aço,
expostos às nove da amanhã do domingo,
nas portas da rua,
à sombra (que o sol tá de amargar).

Esperemos as chuvas.
Entremos pela porta da cozinha memo.
Trepemos e chupemos,
inté fartá (as jabuticabas).
VI –Bom dia, diz-se na manhã fria.
U ôi se amolece ao meio dia.
Antão até isturdia.