quarta-feira, novembro 16, 2011

AS SURPRESAS DA MEMÓRIA - Lázaro Barreto.


Vou muito a São Paulo onde vivem meus queridos membros da Família. Cansado de enfrentar e de sofrer o congestionamento da Fernão Dias: esperar horas e horas diante dos constantes e trágicos engarrafamentos, ah, não há cristão que agüenta. Ultimamente temos ido (eu e esposa) através da ponte aérea Confins – São Paulo, apesar de mesmo assim sofrermos o também constante engarrafamento na ida e na volta na área da chamada Grande-BH. O percurso só fica tranqüilo depois da Pampulha. E sempre que passo na região fico pensando nos percalços das tropas dos participantes da famosa Revolução Liberal das Guardas Nacionais em 1842. Meu trisavô paterno Bernardo José de Oliveira Barreto era, na época, o Comandante General da Companhia do Desterro, distrito do Tamanduá, constituída de um contingente de mais de cem militares com toda a escala hierárquica tradicional. O Desterro da época era imenso e muito povoado: mais de dez tabernas (nome das pensões) e a Igreja (inaugurada em 1754) não estava de costas, mas de frente para a população que descia o Morro do Areião e se esparramava até a região que hoje é chamada de Lavapés.

“A Revolução Liberal de 1842”, está na página 29 do livro do Cônego Marinho: “começou em Sorocaba, (SP) e propagou em Minas, e visava, não derrubar o Império, mas sim o Ministério que dissolveu as Assembléias, amordaçou a oposição, centralizou o poder executivo, limitando o poder político dos municípios”. Objetivo dos Liberais da Guarda era a marcha contra os governos provinciais atrelados ao poder central do Império. A Guarda do Desterro, reunida à de Oliveira e de Cláudio marcharam na direção de Ouro Preto (então capital da Província de Minas), passando pela mesma direção que hoje faço para chegar ao aeroporto de Confins – mas foram interceptados na região de Santa Luzia pelas forças do exército nacional comandadas por Duque de Caxias. Alguma parte dos rebelados foi presa, alguns foram mortos e outros feridos e muitos foragidos, inclusive meu trisavô.

O Cônego Marinho, no mesmo livro, informa que “a maior parte dos rebelados refugiaram-se nas matas onde eram buscados como se caçam as feras”. O nosso Bernardo escapou, mas aos trancos e barrancos pelo mato afora e adentro, seguindo as trilhas dos tropeiros (ele mesmo comercializava um grupo de tropeiros que baldeava do sertão de Minas para o litoral (Paraty, hoje no Estado do Rio de Janeiro) aguardente de cana, rapadura, carne e toucinho salgados e na volta traziam os produtos do estrangeiro (macarrão, perfumes, remédios, tecidos). De forma que a muito custo e depois de bom tempo chegou à região de Cláudio, terra de sua esposa Josepha Maria de Jesus, onde conseguiu um esconderijo seguro (conheço o local: o buracão de um esbarrancado repleto de vegetação e de regos de água límpida). Mas a represália aconteceu na devassa que fizeram em sua fazenda do Bonsucesso (a sede ainda existe e é sede de um órgão chamado “Criança Esperança” para a educação de menores desvalidos, mantido por uma corporação assistencialista alemã). Seqüestram os bens de seu armazém e loja no arraial e os bens móveis da fazenda, inclusive 140 bois.

Passado algum tempo a ordem de sua prisão foi anulada. E logo depois, numa eleição para preencher o cargo de Comandante da Guarda do Desterro, ele obteve 110 votos dos 126 votantes, mesmo não sendo candidato. Não é uma prova inequívoca do prestigio que desfrutava junto à tropa e de que não incorrera em erro ao apoiar a insurreição? Logo depois foi absolvido no processo que tramitava na Justiça e, ato contínuo, o Presidente da Província de Minas nomeou-o Comandante do Primeiro Batalhão da Guarda Nacional do Tamanduá, órgão mais importante - por ser de maior abrangência e de maior contingente. A data da nomeação: 26\10\1845.

O estudo da História é cheio de surpresas. A minha pesquisa para a escritura do “Memorial do Desterro” foi uma incursão belíssima e recompensadora, levando-me a dar mais um passo na direção de novos e desdobrados horizontes. Comecei a percorrer os caminhos da Genealogia – e logo no começo, no Arquivo da Diocese de São Del Rei descobri a certidão de nascimento do laureado Bernardo José de Oliveira Barreto, datada de 21\10\1797, constando ter nascido em 27 de agosto do mesmo ano, filho de Antônio José de Oliveira Barreto e de Anna Joaquina Cândida de Castro, neto paterno de Gregório Francisco de Oliveira e Maria Rosária de Freitas, da Vila de Guimarães, arcebispado de Braga, e neto materno de Faustino José de Castro, natural da Freguesia da Sé da cidade do Porto, e de Rosa Angélica da Luz, natural de Prados, Minas Gerais, sendo padrinho o ilustríssimo e excelentíssimo Sr. Bernardo José de Lorena, Governador e Capitão General da Capitania de Minas Gerais”, sendo a madrinha Hipólita Jacinta Teixeira de Mello, esposa do Inconfidente (ela também era uma inconfidente) Francisco Antônio de Oliveira Lopes.