OS FELIZES OITENT’ANOS - Lázaro Barreto.
Há quarenta mil anos que procurava,
Que procurava um livro, uma sombra,
Que procurava em toda parte a cósmica alegria
E a eterna lágrima
Da dor que eu sentia como filho de Deus
E enteado do Demônio.
E foi num dia de chuva, numa praça de pedra,
Que encontrei Carlos Drummond de Andrade,
No município de Guanhães, fração do universo
Mineiro que ele canta. Encontrei
O canto, o livro, a sombra.
Há quarenta mil anos que sondava a gruta
Do Levante Espanhol e da Lagoa Santa,
Procurava o papiro, a tábua da lei, a canção
Que encontrei nas portas abertas das montanhas
De Minas e de Drummond.
Li os poemas do homem falando com o homem,
Senti o choque e o repouso, o fluxo
Que me retém na faixa do silêncio revolucionário,
Onde cada palavra é um corpo que povoa o novo mundo.
Encontrei retraídas fichas de identificação,
Delicados meios e nuances de me comunicar
Através de muros e de mares:
Essa boa, farta e mansa, chuva de versos
Que semeia adeuses e caminhos.
Há quarenta mil anos que procurava
A sombra e o fogo dessa árvore
Que agora me embala e me sacode.
(Divinópolis, MG, 1973).
Anexo:
Cópia de carta manuscrita de Drummond, datada de “Rio de Janeiro, 14 de março de 1983: “Meu caro Lázaro Barreto:
“Seu poema, que o SL do “Minas Gerais” publicou, penetrou fundo no coração deste octogenário. É das coisas mais belas e magnânimas que já recebi, sem tê-las merecido.
A você, num abraço caloroso, o profundo agradecimento de
Carlos Drummond de Andrade.

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