segunda-feira, dezembro 11, 2006

Réplica ao Hipotético Desamor

RÉPLICA AO HIPOTÉTICO DESAMOR (*) - Lázaro Barreto.


Como é triste acompanhar de longe
a maciez do barco na água trêmula,
como se alguém que estava perto,
agora, distanciado, abana as mãos.
Como oprime sentir as novas manhãs
camufladas em reles fins de tardes,
sentir que um de nós perdeu o outro
de nós,
mesmo sabendo que o destino das afeições esmaecidas
é fluir para novas afeições,
que revigorem as que não esquecemos,
e que estavam conosco desde que nascemos
e que conosco estarão até depois que morrermos.
Mas como é triste não ter mais para flertar
os olhos que vivificavam
as naturezas-mortas das obras de arte,
os olhos que brilhavam nas palavras que o silêncio
dizia,
que dizia: como esquecer o que não foi dito
e que existia?
Como lembrar o que foi meramente pensado?
O silêncio a dizer nas gôndolas e barcaças
rumando
para as distâncias que mais fazem lembrar
tudo o que não foi dito.
E como agora estender a mão no vazio
para quem tem o rosto no luar?
Como é triste perceber que um de nós,
que era o outro de nós,
não é mais toda a humanidade que era,
para nós – ou ainda continua a ser?
E mesmo que os pombos batem asas, as gaivotas sobrepairem,
mesmo assim estamos cansados de saber
que o amor não se perde na perda
da pessoa iluminada,
da pessoa iluminada,
que em si resume a humanidade, a humanidade
que celebra o sol
mesmo debaixo do nevoeiro que o embaça,
como talvez dissesse Gaston Bachelard
em suas anímicas ruminações.

(*) – Texto escrito depois de ver e ouvir “Que C’este Triste Venise”, no duo de Patrícia Kaaz e Charles Aznavour.