quinta-feira, julho 03, 2008


I

Não custa nada ao narrador onisciente, nesta altura de nossa parte do imenso mundo criado por Deus e mantido em parceria com suas criaturas minerais, vegetais e animais,
dar um pulo até à região da Vargem Grande, para ver o andamento das coisas de lá em suas múltiplas constatações, sob a batuta da dupla do barulho, o Balamão e o Sidônio, que como já vimos e agora vamos rever, não são flores que cheiram bem. Sabemos que a jaratataca se anuncia pelo fedor que desprende - e até penso que foi naquelas paragens que se originou o rifão: “quem tem cu tem medo”. A própria égua cabresteira e certeira nos pinotes e valente na marcha picada, estava, de tal modo afetada pelo fetichismo, que não podia ver uma poça dágua que prancheava nela todo o lado direito de seu corpanzil. E tem outro dito popular a prevenir que basta falar no Medonho, que ele aparece. As veias de meu corpo até esfriam, só de pensar. A verdade é que o Sidônio armava as arapucas contra os roceiros, com tal perícia e feitiçaria que só ele mesmo poderia desarmá-las. Difundia as crendices nas pessoas, propalava que o pântano que vinha dos Lameus estava infestado de maus fluidos e que o malefício ia fazer o barro sopitar e alagar toda a baixada. E para que todos, de boa fé, acreditassem em seus sofismas, ele ensaiava publicamente um exorcismo, com as palavras: “São Arcanjo, valei-me!” E orava ajoelhado e de mãos postas diante de um galho de lobeira. “Como o mar braveja, o vento venteja, e o céu estreleleja, assim rogo-vos que braveje, venteje e estrelelege, para que todo mal que acomete os moradores desta nesga de Vargem seja tirado, sem dor e com piedade”.

Assim o terror estampava a face de cada uma das condoídas pessoas que percebiam que naquelas paragens contaminadas só o caminho de ir embora é que estava livre e desimpedido. O que restava era só golpe de foice no escuro? Os bigodes dele, como tutarana agarrada acima do lábio superior, suplicava um socorro; e seus cabelos, como palhas de arroz entornadas do chapéu de abas largas, ameaçavam, praguejavam. O resto do rosto perdeu os olhos e a boca e ganhou felpas agudas e ferinas. “Os inquisidores chegaram! Chegaram os estripadores!” – Ele gritava de dentro da furreca fantasma, ao lado do Balamão, que se segura num fio de teia de aranha e enterra a faca na sombra até esbarrar num grito desconhecido, de outra parte do mundo.


(*) Fragmento do romance inédito “O Dia do Casamento”, de Lázaro Barreto.


rong> INTERLÚDIO (*)

I

Não custa nada ao narrador onisciente, nesta altura de nossa parte do imenso mundo criado por Deus e mantido em parceria com suas criaturas minerais, vegetais e animais,
dar um pulo até à região da Vargem Grande, para ver o andamento das coisas de lá em suas múltiplas constatações, sob a batuta da dupla do barulho, o Balamão e o Sidônio, que como já vimos e agora vamos rever, não são flores que cheiram bem. Sabemos que a jaratataca se anuncia pelo fedor que desprende - e até penso que foi naquelas paragens que se originou o rifão: “quem tem cu tem medo”. A própria égua cabresteira e certeira nos pinotes e valente na marcha picada, estava, de tal modo afetada pelo fetichismo, que não podia ver uma poça dágua que prancheava nela todo o lado direito de seu corpanzil. E tem outro dito popular a prevenir que basta falar no Medonho, que ele aparece. As veias de meu corpo até esfriam, só de pensar. A verdade é que o Sidônio armava as arapucas contra os roceiros, com tal perícia e feitiçaria que só ele mesmo poderia desarmá-las. Difundia as crendices nas pessoas, propalava que o pântano que vinha dos Lameus estava infestado de maus fluidos e que o malefício ia fazer o barro sopitar e alagar toda a baixada. E para que todos, de boa fé, acreditassem em seus sofismas, ele ensaiava publicamente um exorcismo, com as palavras: “São Arcanjo, valei-me!” E orava ajoelhado e de mãos postas diante de um galho de lobeira. “Como o mar braveja, o vento venteja, e o céu estreleleja, assim rogo-vos que braveje, venteje e estrelelege, para que todo mal que acomete os moradores desta nesga de Vargem seja tirado, sem dor e com piedade”.

Assim o terror estampava a face de cada uma das condoídas pessoas que percebiam que naquelas paragens contaminadas só o caminho de ir embora é que estava livre e desimpedido. O que restava era só golpe de foice no escuro? Os bigodes dele, como tutarana agarrada acima do lábio superior, suplicava um socorro; e seus cabelos, como palhas de arroz entornadas do chapéu de abas largas, ameaçavam, praguejavam. O resto do rosto perdeu os olhos e a boca e ganhou felpas agudas e ferinas. “Os inquisidores chegaram! Chegaram os estripadores!” – Ele gritava de dentro da furreca fantasma, ao lado do Balamão, que se segura num fio de teia de aranha e enterra a faca na sombra até esbarrar num grito desconhecido, de outra parte do mundo.


(*) Fragmento do romance inédito “O Dia do Casamento”, de Lázaro Barreto.


INTERLÚDIO (*)

I

Não custa nada ao narrador onisciente, nesta altura de nossa parte do imenso mundo criado por Deus e mantido em parceria com suas criaturas minerais, vegetais e animais,
dar um pulo até à região da Vargem Grande, para ver o andamento das coisas de lá em suas múltiplas constatações, sob a batuta da dupla do barulho, o Balamão e o Sidônio, que como já vimos e agora vamos rever, não são flores que cheiram bem. Sabemos que a jaratataca se anuncia pelo fedor que desprende - e até penso que foi naquelas paragens que se originou o rifão: “quem tem cu tem medo”. A própria égua cabresteira e certeira nos pinotes e valente na marcha picada, estava, de tal modo afetada pelo fetichismo, que não podia ver uma poça dágua que prancheava nela todo o lado direito de seu corpanzil. E tem outro dito popular a prevenir que basta falar no Medonho, que ele aparece. As veias de meu corpo até esfriam, só de pensar. A verdade é que o Sidônio armava as arapucas contra os roceiros, com tal perícia e feitiçaria que só ele mesmo poderia desarmá-las. Difundia as crendices nas pessoas, propalava que o pântano que vinha dos Lameus estava infestado de maus fluidos e que o malefício ia fazer o barro sopitar e alagar toda a baixada. E para que todos, de boa fé, acreditassem em seus sofismas, ele ensaiava publicamente um exorcismo, com as palavras: “São Arcanjo, valei-me!” E orava ajoelhado e de mãos postas diante de um galho de lobeira. “Como o mar braveja, o vento venteja, e o céu estreleleja, assim rogo-vos que braveje, venteje e estrelelege, para que todo mal que acomete os moradores desta nesga de Vargem seja tirado, sem dor e com piedade”.

Assim o terror estampava a face de cada uma das condoídas pessoas que percebiam que naquelas paragens contaminadas só o caminho de ir embora é que estava livre e desimpedido. O que restava era só golpe de foice no escuro? Os bigodes dele, como tutarana agarrada acima do lábio superior, suplicava um socorro; e seus cabelos, como palhas de arroz entornadas do chapéu de abas largas, ameaçavam, praguejavam. O resto do rosto perdeu os olhos e a boca e ganhou felpas agudas e ferinas. “Os inquisidores chegaram! Chegaram os estripadores!” – Ele gritava de dentro da furreca fantasma, ao lado do Balamão, que se segura num fio de teia de aranha e enterra a faca na sombra até esbarrar num grito desconhecido, de outra parte do mundo.


(*) Fragmento do romance inédito “O Dia do Casamento”, de Lázaro Barreto.

1 Comments:

Blogger Lazaro Barreto said...

por um erro de inserção.foi publicado em duplicada. Excluir a primeira.

2:38 PM  

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