quarta-feira, julho 09, 2008

PRIMITIVO E CRIADOR Lázaro Barreto.


Seus parentes (esposa, filhos, netos) contam as fases e estadias da família: os trabalhos pesados no Peniche; os maus bocados passados na Lajinha; os dias tão atabalhoados na Barra; os casos de sombração no Gravatá; e os do Caboclo Dágua na Cachoeira do Caixão; e as arengas com o Fumo Ruim no Rio de Janeiro. Enquanto ouço, presto atenção no pensamento sobre a magia criativa dele, que faz das tripas coração e de um toco de lenha uma canção. Ele se curva diante dos anos vividos na docilidade dos infortúnios da sorte, pouco importando com as subseqüentes represálias sofridas pelos benfeitos contra os malfeitos deste mundo desmundado. Puro como uma criança bem criada, indefeso como um velho solitário, artista ungido pelas alturas beneplácitas do Criador, conforme ele diz e repete (“sou um artista primitivo e criador”) à equipe de filmagem que vem testemunhar, mesmo em linhas gerais, como ele consegue expulsar os demônios do corpo, para não endoidecer, diariamente, o espírito libertino.

Durante a filmagem dos exteriores no Sítio da Prata do Meio, o diretor Carlos Augusto Calil pediu-me para instigar a verve dele, GTO, na contação dos causos, para assim poder, naturalmente, gravar o pitoresco bestiário que na opinião de toda a equipe seria uma fusão de lembranças e invenções ao sabor do entusiástico falatório. Foi assim que, enquanto ela falava comigo, o Lauro Escorel vinha com a câmara lenta de baixo para cima, na terra arada do sítio, o gravador escondido no peito de cada um de nós. Ele começa falando do moço sacudido, ladino e maludo, chamado Juca do Gustavo, que tinha comprado as terras secas da Prata de Cima e queria comprar as mais úmidas da Prata de Baixo. Mas o dono destas, um tal de Belarmino Costa Larga, não queria vendê-las por nenhum dinheiro.

Neste ponto ele falava de seu anterior conhecimento do lugar e desse tal de Juca do Gustavo, um ser pretérito e lendário, meio cafuso e descabriolado, um bruxo. O escultor transpirava, a pele queimada, intensamente escurecida no borralho das pelejas roceiras de sol a sol de sua vida custosa. Falava reverentemente, menosprezando seu próprio nome emblemático, o já famoso GTO dos sonhos e das artes, uma espécie de mago, um assombro de prodígios intemporais, o demiurgo das insatisfações e potestade dos preâmbulos, que já viveu incontáveis fases de nossa história-pátria e interpretou outras tantas da idade de nosso pobre e rico mundo, um obedecedor diurno dos sonhos noturnos. Ele sentou no toco de jacarandá, serrado a meio-metro do solo – e disse ao Calil, que manejava a máquina fotográfica: “Pode bater!” Fiquei preocupado com a impressão que a foto podia dar aos outros: de ser ele o responsável pelo corte da árvore em cujo toco sentava. Logo ele, criador de formas e conteúdos, uma espécie de ressuscitador de toda a flora devastada pelas siderurgias da cidade. Pedi que recontasse a estória do Juca do Gustavo, misturando-a ao viveiro de formas e conteúdos do santuário de sua oficina, onde conviviam nos baldrames e receptáculos, nas estantes e giraus e mesas os índios de bálsamos abismados na noite das antigas florestas, e os negros de caviúna esbordoados ao peso da tarde, e a nefasta ociosidade senhorial dos patrões em peroba-rosa, as mucamas e sinhazinhas em acertados cedros do líbano, as mandalas e oroboros em jatobás e sucupiras. A Mandala, bem lembrada! O círculo mágico dela, a totalidade dos componentes anímicos, a figuração da névoa cármica, os elementos dos mistérios mais íntimos e distantes.

- O Juca era um limpa-trilhos, ninguém podia com ele nas panelas e pratos das refeições. Mas se estávamos capinando milho, ele chegava e logo esfarelava o mato da roça. A gente nem via o corpo dele a roçar o pasto, só os ramos tombando no capinzal, já murchos. Uma vez fomos picar lenha na Mata dos Coqueiros (isso quando as siderurgias estavam chegando, vorazes, na cidade) – e ele estraçalhou toda a capoeira antes do sol se pôr. Nem se via seu machado picando, apenas os paus partindo em tamanhos regulares e empilhando-se, a bem dizer, sozinhos.

É uma estória delirante, pensei. Uma verbalização de seus dons inventivos, mais uma ajudazinha de Deus para expulsar os demônios de sua alma. Nele como no poeta Saint-John Perse (“O alfaiate pendura em velha árvore um traje novo de belíssimo veludo”), a lucidez passa pela mediação do sonho – a primogenitura onírica está em cada poema de madeira ou de palavra, partejando as unidades de uma população debruçada nas janelas do poente.

- Quando o Juca do Gustavo foi para ao exército de São João e de lá para combater e morrer nos campos de batalha da Itália, a fazenda da Prata de Cima começou a cair aos pedaços. O que se fazia de dia era desfeito de noite. Eu mesmo, que já morava aqui na Prata do Meio, fiquei uma semana capinando o mesmo lugar na roça de arroz: o mato que cortava de dia, repegava de noite. E por um capricho do destino, a outra Fazenda, da Prata de Baixo, prosperava à luz dos olhos mais descrentes. Tinha chegado lá um moço bonito, engravatado, embotinado, trajando o terno de linho branco e a camisa de seda, propagando as maravilhas do progresso metropolitano, a exibir folhetos de lindas mulheres peladas, de granjas pré-fabricadas, de máquinas agrícolas, adubos químicos e sementes selecionadas. As cinco moças da casa, filhas do Belarmino Costa Larga apaixonaram-se por ele, num átimo. Duas eram magras e esguias, duas eram robustas e fornidas, só a mais velha era indeterminada, a transigir de feiosa a mandona. Mas depois de doutrinada pelo moço, também se abrandou e aformoseou. Cada uma partilhava o fervor dele, cumpria os ritos e os ciclos, paria religiosamente nas primaveras.

Eu ouvia a contação, associando os lances da estória aos arabescos das peças escultóricas, os tocos de madeiras transformados em imagens de seres vivos que só faltavam falar convencionalmente, pois etnograficamente já falavam. Falavam da nostalgia pré-colombiana, da vontade de restaurar a grandeza messiânica e assim ofuscar a historicidade opressiva da raça sob o tacão dos invasores de olhos mortais. E falavam também da primitividade asiática, não estigmatizada pelo estupro da escravidão, mas igualmente portadora das feridas contraídas na peregrinação do deserto, no nomadismo judaico ao mesmo tempo infinito e circunscrito.

- Muitos diziam que o moço chique da Prata de Baixo era a metamorfose do Juca do Gustavo, da Prata de Cima, que tinha morrido na guerra. Possuía idênticos poderes absolutos, agora em forma mental e não mais na energia corporal. Uma contra-ordem de baixo ou do alto e ele fazia as pilhas de lenha voarem por cima desta Prata do Meio, mesmo aqui neste alto sobre o qual estamos – e as pilhas passavam acima das casas e das moitas de bananeiras, e depois aterrissavam lá na Prata de Baixo, onde se tornavam árvores vivas, novamente. E voavam também o gado e a porcada, e o alambique de pinga e o moinho e o monjolo – e quando desciam na outra fazenda, mudavam de figuras: o gado leiteiro virava gado solteiro, a porcada virava um rebanho de ovelhas, o monjolo virava uma moenda, e o paiol um chiqueiro repletos de porcos gordos. De forma que, a rigor não se pode dizer que havia expropriação nem apropriação, apenas o fato inusitado: enquanto uma fazenda decaia, a outra prosperava.

Enquanto ele contava, a tarde caia na terra arada, as andorinhas catavam as minhocas expostas ao ar livre e os gaviões aterrorizavam os cuidados das galinhas de pinto no terreiro da casa de pau-a-pique de uma de suas filhas. Eu ouvia o que ele dizia, e pensava na transformação da natureza, na chegada do modernismo nos sertões mineireiros: a dessacralização dos lugares emblemáticos, o desnudamente do panteísmo tão arraigado na cultua popular dos moradores. Milênios de hordas migratórias e de agricultores de subsistência não mudaram tanto a face do planeta como agora está fazendo a mão de ferro do desmatamento, da mecanização da lavoura e da monocultura.

- De forma que o filme está chegando ao fim? – Ele disse ao Calil e ao Escorel, que chegavam onde estávamos. Que pena, ele acrescentou.”Não tinha chegado nem no meio da estória”.