terça-feira, janeiro 19, 2010

DE MARCEL PROUST (1871-1922).
TRANSIÇÃO OU TRANSFUSÃO OU TRANSLADAÇÃO OU TRANSPIRAÇÃO
DE TRECHOS DA COLETÃNEA “EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO”. – Compilação e adaptação de Lázaro Barreto.


I – NO CAMINHO DE SWANN (*).

No fluxo melódico dos livros de Bergotte
encontramos
o refúgio para as ocupações solitárias,
divagando, devagar e sempre...
As prescrições ferozes fazem sentido:
quem fez o tempo não o vendeu para nós.
É o presente que Deus não dá duas vezes.
O sonho é menos cruel do que a realidade.
A nossa personalidade social é corroída
na virose do ciúme,
pois o amor...:
o amor é que nos apresenta a angústia,
a primeira ruga,
o primeiro cabelo branco.
Ah, o prosaísmo: o prosaísmo
é um reservatório de poesia,
este pedaço de céu acima do mundo.
É assim, é assim
que Deus me devolve uma idéia que se perdera
no sentido literal do símbolo....
A sensualidade é, sim, um momento de exceção,
é a música do luar na flauta do silêncio,
o reino vegetal da atmosfera,
as árvores feridas e não vencidas,
a pupila apaixonada no rosto gelado,
a horticultura aquática,
a frase oculta na ociosidade da alma,
o desamor que devolve o coração
- é assim que Deus nos devolve a idéia
sem devolver o coração.

(*) – A tradução do original é de Fernando Py, edit. globo, RJ, s/data.


II – A’ SOMBRA DAS RAPARIGAS EM FLOR (*).


O rosto mais rosado que o céu,
as folhagens da alma,
o lado mais estático do luar,
as tranças da amada
no inconsciente fluir das distâncias interiores....
O desejo de viver que em nós renasce
nesta fase nova, particular, imprevisível,
da felicidade e da beleza,
substituindo as insinuações da morte fragmentária
e sucessiva
de nosso cansativo cotidiano...
O amor com suas imagens renovadas
(a divindade na fluidez de um sopro)
e sua antiga violência e imprevista
doçura,
o inquietante desejo de um novo ponto de partida,
o sofrimento inconcluso que a alegria neutraliza
momentaneamente,
constantemente.
Irradia da pessoa amada e volta para o ponto de partida,
momentaneamente, constantemente.

Ah, o encantamento de um novo rosto inspira,
inspira
e constrói as catedrais góticas, os palácios e os jardins da Itália!

O inopinado afluxo de lembranças,
a intermitência do amor nos dias e lugares
(nos belos sítios da acidentada paisagem das horas).
O que fica na memória é o AMOR,
pois que só depois de séculos é que uma obra-prima se torna
verdadeiramente nova....

As moças da roça
lembram que a beleza das criaturas humanas
nunca é igual à dos outros seres:
no fundo do distraído olhar, a alma sempre vaga...
Com as moças a brisa estremecia a paisagem,
enchia de ondulações fugidias os pilares da fachada vegetal...
E uma, entre as raparigas em flor,
aquela de faces onde o róseo tom acobreado,
de gerânio,
imprime a flutuação harmoniosa,
a translação contida de uma beleza fluida.
Como possuir tal jovem,
sem possuir também o que há de enigmático em seus olhos?
O momento da Arte é o mesmo do Amor?
Os raros momentos em que a Natureza se mostra,
tal como é,
é ali, é ali que está a Obra de Arte.

(*) Trad. do original de Mário Quintana, edit. globo, SP, 1999.


III – O CAMINHO DE GUERMANTES (*).


A virtude carnal, a riqueza da alma da pessoa
e dos lugares, tudo está no corpo
(sem ele a alma evapora).
A beleza feminina,
a realidade dessemelhante,
o leite da volúpia a ferver,
o secreto jardim do sono
e também
o silêncio no reencontro de si mesmo,
e também
a embriaguez do amor
e todos os beijos são os primeiros,
assim o animal em nós,
é assim que o corpo diz ao espírito:
cada mulher são todas as mulheres!
Assim fica batizado o conhecimento intuitivo,
as variáveis das carnações, o desejo de beijar
toda a praia da visada mulher.

O que é o prazer aninhado em nossa particularidade?
O olhar do sol sobre a floresta em incessante festa?
A transcriação literária de um soneto de Shakespeare?
A súbita importância da toponímia dos acidentes geográficos??
Uma miragem da profundidade hospitaleira?
A generosidade, a fidelidade do amor inconstante?
O amor sexual da própria natureza?
O leito do homem é o mesmo do de Deus?
E as forças do eu e do não-eu, onde ficam?
É bom variar de forma ao longo do conteúdo?
É assim:
nadar de braçadas!?

(*) Tradução do texto original de Mário Quintana, Edit. Globo, Porto Alegre, RS, 1981.


IV - SODOMA E GOMORRA (*).


- Aquele homem que tanto alardeava virilidade,
possui os traços, a expressão e o sorriso
cujo talhe volumoso é igual ao de uma mulher grávida, -
cujo ideal é viril e o temperamento nem tanto....
Possuído de uma disposição inata que repugna aos outros
mais do que certos vícios,
como o roubo, a crueldade, a má fé,
mesmo assim
ele conta com adeptos em sua intimidade acariciante.
É assim como a mulher que gosta de outra mulher?

Quem transpira mais, urina menos.
As flores se valem dos insetos para a fecundação,
uma vez
que a masculina está sempre longe da feminina...
O romance do pecado humano
tem em seu primeiro capítulo
(Adão e Eva)
a fruta do desejo bem à frente dos olhos.
No segundo capítulo
(Sodoma e Gomorra)
a fruta do desejo fica bem na parte de trás do corpo.

Quando o futuro habita em nós,
as nossas palavras delineiam uma realidade bem próxima.
A recepção social da nobreza é muito enfadonha.:
não há cristão que agüenta...
Albertine estava perto de mim
como um torrão de terra trazendo as gramíneas
que o cercam.
Ah, o nosso valor quase fictício das riquezas indisponíveis da alma!
A morte do ente querido é uma espécie de doença,
da qual a gente custa a restabelecer...

Quando os seios de Albertine e de Andrée se tocam,
elas enxergam o sétimo céu do gozo...
O ciúme, porém atraca, ele que pertence à família das dúvidas
doentias.
Mas se alguém procura a dor,
não vai saber livrar-se dela.
O líquido salgado de nosso sangue nada mais é
do que a sobrevivência interior do elemento marinho primitivo?

“Acho irritantes esses meios clericais:
uma seita de mel para uns,
de desprezo para os outros.
Detesto as panelinhas sociais,
jamais diferenciei os operários dos grão-senhores,
uns e outros podem ser meus amigos”:
assim ele dizia a si mesmo.
“Aconteceu em Paris,
que deixei de amar Albertine, depois de a ter possuído pela primeira vez...
Ah, o olhar furtivo
e ao mesmo tempo inquisitorial e timorato do sr. de Charlus....
Fui sucedido por meus amores dessas mulheres dotadas
de beleza, inteligência, bondade,
vale dizer:
uma corrente elétrica a mover-me, diuturnamente...”.
Ele continua a monologar, diuturnamente.

(tradução do original por Mário Quintana – Edit. Globo, SP 2008).


V – A PRISIONEIRA (*).


Um cão, um gato e uma pessoa embriagada de lembranças.
A paixão jorrava nos cabelos soltos dela e também nos olhares
multiplicados em muitos pedaços de mentiras e verdades.
A ansiedade vai além da beleza
encontrar as mil e uma variedades de sonhos.
As lembranças, sempre as lembranças,
chegando com seus incontidos apetites.
Um novo som de violino interior?
Um novo amor semeador de redemoinhos?
O sofrimento literário,
quando a mulher é uma série de eventos
em vez de ser apenas uma mulher:
o clima que se desprende da roupa;
os braços não seguem o olhar, que abraça
o puro cântico dos anjos....
Assim as pessoas se entendem sem nada dizerem.
Assim é o flerte que leva ao grande amor.
Assim aceitamos as águas que engoliram o barco.

É preciso reter a imagem fugidia.
As moças do povo são deusas também!
A amada que não tem um desconhecido encanto,
não existe, não existe, não existe.
É preciso que tenha e mantenha o ornamento múltiplo
e esparso no sorriso...
O adultério, o amor, a família: são sinônimos?
Como resistir a uma reiterada tentação?
Não temer o rompimento é a melhor maneira de evitá-lo?
Os sons musicais perto do invisível e do inefável,
filiam-se a um outra realidade espiritual?

Ah, a impossível interpenetração das almas:
mais amamos o que menos possuímos?

(*) – Tradução de Fernando Py – Edição Clássicos de Bolso – Ediouro, RJ, 1994.


VI - A FUGITIVA.


A mágoa ressentida a tudo destrói,
até mesmo a importância dos títulos nobiliárquicos,
até mesmo a carnação em flor de um jovem
e de uma jovem.
O ciúme é incurável.
Possui a força da dor, mostrando
que a morte não põe nada em seu lugar.
A doce imagem da amada cristaliza na memória,
acrescida de todas as sensações do afeto incontido.
O pássaro que recanta o nome das origens dos rios e dos acontecimentos
voa sempre no ar que respiramos.

A culpa fica sempre nos olhos dos outros.
Passei a ser um plágio de mim mesmo?
No lado moral do mundo e na zona boêmia do coração,
a felicidade no alçapão,
como o horizonte, está sempre adiante.
Só é bom o que é difícil.
A morte não põe nada em seu lugar,
além da lágrima e da angústia.
O mundo não foi criado de uma só vez.
O necrológio da amada
está
no ciúme retrospectivo.

Ah, deixar de ver, de tanto ver!
O ruído que escapa de uma harpa:
formosura, curiosidade, encanto.

O esforço para separar, une mais.
A claridade da pele nos olhares brilha mais.
Os laços cotidianos rompidos. Rompidos?
A universalidade do desejo é o pássaro
a recantar o estribilho, a dizer
que agora
quem amamos está no passado.

(*) – Tradução de Fernando Py – Edit. Ediouro, RJ, 1995.


VII - O TEMPO RECUPERADO (*).

A fina flor da humanidade não é a paisagem
nem o tempo,
é a própria pessoa que trabalha tão acuradamente,
tão elegantemente,
minuciosamente,
encantadoramente,
vale afirmar: é o próprio Marcel Proust,
na busca de um tempo que encontrou,
ensinando-nos que a procura pode ser
o próprio encontro.

Os mestres de outrora sabiam conservar
várias juventudes.
Às vezes surpreendem a intimidade
na poesia da mundanidade,
mesmo ali ou na distância
de uma campina tecida de pétalas de pereiras em flor,
de uma praia de raparigas em flor,
estão
as conquistas fáceis que precedem as definitivas perdas.
Amar é, então, um dos tipos da sorte aziaga?
A lógica da paixão tem suas debilidades,
torna a pessoa mais crédula e menos consciente,
mais airosa nos parques e jardins,
onde
as pessoas celebram a felicidade de um defunto
e não apertam as mãos de um canalha...
Ah! A Criação está se finando ou recomeçando?

O olhar nublado dos nevoeiros da frieza
atesta que a vitória pode estar com os vencidos,
os vencidos
que sempre estiveram sob as sombras da morte,
nas mãos dos sempre reeleitos corruptos...
Os verdadeiros paraísos são os que já perdemos
(o que existia antes de nós não nos pertencia).
Só a frase diferente pode definir o desejo incubado,
visível apenas espiritualmente.
As belas idéias são árias musicais que marcam
a hora que não é apenas uma hora.
Ninguém escapa da hereditariedade.
O livro da sabedoria essencial já existe,
filho que é da obscuridade e do silêncio,
ignorado que é das pessoas cruéis, que abominam
a arte de viver e de manejar os pincéis ébrios do amor.
O livro é um vasto cemitério,
uma incrível plantação que vemos e conhecemos,
que cobrimos e desnudamos:
a felicidade e o desgosto,
a velhice,
a mente estampada no rosto,
a idéia da morte como a de um outro amor.

No afã de compor sua obra literária,
Proust via Albertine,
a enigmática e profunda Albertine...
Ele a via dormindo
nos braços da Criação
assim, assim mesmo
perpetuamente recomeçada.

(*) – Tradução de Fernando Py - Edit.Ediouro, RJ, 1995.