quarta-feira, janeiro 20, 2010

A’ MARGEM DA LEITURA DE MARCEL PROUST - Lázaro Barreto.

Ao contrário de muitos bons romancistas, Proust trabalha a linguagem com a atenciosa paciência de um cientista que estuda os microorganismos, vendo neles o princípio que leva aos meios da finalidade existencial. Sabe transformar o pequeno em grande. Um simples gesto, um mover de lábios, um rápido olhar deixa-o empenhado em transformar as palavras escritas o que, de outra forma, as palavras faladas não conseguiriam revelar. É assim que o que é aparentemente pequeno fica imensamente grande na torrencialidade de sua escrituração, por meio da qual ele acaba revelando tanta preciosidade da VIDA que, de outra forma (sucinta e sintética), seria impossível. Esmiuçando o conteúdo de um pensamento ou de um sentimento, ele vai em todas as dimensões do fato ou da idéia, com o palavreado da palavra escrita e cria e estampa o quadro das minudências agora transformado em mural das grandiloquências. As frases longas em períodos ainda mais longos, em parágrafos de páginas inteiras não cansam o leitor, que sente a todo momento o palpitar de uma vida latente, sub-repticiamente aflorada.

A Solidão do Artista.
O personagem com o nome do pintor Elstir “na falta de uma companhia suportável, vivia no isolamento, com uma selvageria que a gente da sociedade chamava de atitude e má educação, os poderes públicos ausência de espírito corporativo, seus vizinhos loucura, sua família egoísmo e orgulho”. E adiante o autor acrescenta: “Talvez então vivesse sozinho, não por indiferença, mas por amor aos outros”. Um dia ao ver de repente um belo vulto feminino, ele (o pintor) sente as “flechas da beleza” e se pergunta se no mundo existe “algo mais na parte de complemento do que a nossa imaginação” possa acrescentar, além da imagem dessa “mulher que passa fragmentária e fugitiva”.

Ele mesmo um Artista de mão cheia, como se diz, mentaliza sobre “o encanto independente do vestuário da mulher” que rivaliza com as maravilhas da natureza, “tão frescamente pintado como o pêlo de uma gata, as pétalas de um cravo, as penas de uma pomba”. Na página 380 do romance “A’ Sombra das Raparigas em Flor”, ele volta a falar dos olhos de uma das moças visadas: “embora quietos, davam uma impressão de mobilidade, como acontece nesses dias de muito vento, em que não se vê o ar, mas nota-se a rapidez com que atravessa o fundo azul”.... “Quando nossos olhos cruzaram, como esses céus viajores dos dias de tormenta, que se aproximam de uma nuvem menos rápida, tangenciam-na, tocam-na, passa adiante. Mas não se conhecem e afastam-se um do outro”. Na página 423 ele fala sobre a amizade e o amor: “Podemos ficar falando a vida inteira sem fazer outra coisa senão repetir indefinidamente a vacuidade de um minuto, ao passo que o andar do pensamento no trabalho solitário da criação artística se efetua no sentido da profundidade, única direção que não está vedada e em que podemos progredir, embora com mais trabalho, para alcançar uma verdade”.

As Palavras São Personagens?

Os inumeráveis viveiros das paisagens, seres e objetos de toda espécie, das inconstantes figurações das nuvens às infindáveis aparições de imagens animais, minerais e vegetais são, aos olhos do leitor atencioso de Proust, os principais personagens de sua extensa e profunda reconstituição da juventude na excelsa coleção romanesca de sua obra literária. Muito mais do que os barões e baronesas, príncipes e princesas, senhores e senhoras do grande mundo social da aristocracia francesa do século dezenove, as nesgas de uma visão passageira, o descortinar de um recorte paisagístico marítimo ou terrestre (um conjunto de áreas virgens ou construídas), importam mais, ocupam mais espaço e significam mais. Ao leitor atencioso fica mais na memória da leitura o que ele via e pensava, escrevendo, do que os personagens diziam ou faziam lá no recôndito da vida deles - e não no primeiro plano das imprescindíveis impressões. Em qualquer página vemos mais os olhos do que as mãos do personagem – vale dizer: mais o espírito (a alma) do que o corpo (a matéria). Estou quase a dizer que, em suma, na obra dele a própria matéria fica (e muito bem) espiritualizada. E vice-versa: por que não? É assim, pois, em Proust, que mesmo no torrencial dueto da narrativa com a descrição, o clima dramático jamais recai na comédia e jamais avança na tragédia. O lirismo permeia e envolve a dramaticidade, salvando-a, ou seja, embelezando-a. Em suma, como está na página 58: “A Amizade acaba no Ano Velho, enquanto o Amor começa no Ano Novo” – assim é “o inconsciente fluir dos dias de sempre”.

Os Dons e Predicados das Moças em Flor (*).

O olhar na doçura da recordação.
Convertido em matéria de sonhos.
Um perfil intangível de uma das moças,
o apertado dos lábios da outra.
Algo aprofunda as superfícies singulares?
Alcança as vertigens dos anseios?
A voz canta ao som de um violino anímico?

Os dons e predicados de uma e de outra
agregam , delgados e finos,
uma espécie de vida particular,
otimista.
Às vezes prenhes de luz macia e fogo brando,
dourados como as folhas do outono,
adoçando a coloração rosada,
levemente malva,
os olhos
de uma delas atraiam a profundidade dos sentidos
de quem apalpasse a sonoridade
do arrulho diáfano da suavidade sensual,
provando e aprovando
o gosto das partes da inteira pessoa dela,
na cumplicidade
da volúpia.

(*) Poemeto inspirado a LB ao longo da leitura.