domingo, janeiro 30, 2011

FACÉCIAS, AQUARELAS E RELIQUIAS - Lázaro Barreto.


- A cena mais esdrúxula e degradante que se pode ver na cidade de Divinópolis: é a do ajudante de caminhão do matadouro atravessando a rua com a enorme banda do capado (porco) nas costas. Aquela coisa horrível, revestida de pele escura e do toucinho branco, parte da cabeça esgoelada e os mocotós apensos, tudo manchado de sangue e sujeira enganchado, dos ombros do pobre coitado. É inacreditável que a cena prenuncia o repasto apetitoso (para não dizer esganado) dos seres humanos carnívoros....

- Revendo o filme “A Menina de Ouro”, de Clint Eastwood, ocorreu-me que talvez (ou certamente?) o comportamento humano mais difícil de ser plenamente realizado é o de uma pessoa conseguir ser BOM e FELIZ o tempo todo ou pelo menos parte da VIDA. Eu sei que não consegui. Sei de muitas pessoas que possam ter conseguido – mas de tal mérito só mesmo cada uma delas sabe. Depois de rever o filme e indo da sala para o quarto revi (como sempre várias vezes por dia) a foto de meu primeiro netinho, aos dois meses de idade: a expressão fisionômica encantadora, bela e feliz, inspira confiança na vida e no mundo. E muito otimismo quanto ao próprio futuro e o de toda a humanidade. Uma nova esperança que nasce. Bem haja, pois!

- A feiúra tem algo a ver com a ruindade e vice-versa? E a beleza? Ah tem que ser escrita com letras maiúsculas.

- Musa é toda mulher que, pelos predicados sedutores de beleza, simpatia e romantismo, é sempre moça, mesmo sendo balzaquiana. É musa porque diante dela todo homem, de qualquer faixa etária, é sempre um poeta.

- A mentira tem pernas curtas. O ex-presidente da república obteve uma veemente, terrível resposta para a sua extensa e obtusa megalomania ao se despedir (até que enfim!) de seu prolongado desgoverno, que nunca tinha acontecido igual neste país. Refiro-me à hedionda catástrofe na região serrana do Rio de Janeiro – uma região maravilhosa que de repente ficou tão feia. Vingança da Natureza?

- Depois da catástrofe que matou quase mil pessoas no estado do Rio de Janeiro (a da Austrália, muito mais estupenda matou cerca de apenas vinte pessoas), o velho slogan patriótico “porque me ufano do meu país” pode ser mudado para “porque me envergonho do meu país”.

Leitor inveterado que sempre fui, não posso deixar de citar alguns trechos do livro “A Cama na Varanda”, de Regina Navarro Lins: (da página 155): “Todas as pessoas são afetadas por estímulos sexuais novos vindos de outras pessoas que não os parceiros fixos. Esses estímulos existem e não podem ser eliminados”. Página 157: “Ninguém pensaria em condenar alguém por não querer usar a mesma roupa durante anos, ou por não querer comer todos os dias o mesmo prato”. Acréscimo em outras palavras de outro trecho na mesma página: no mundo animal só a cegonha e os pombos vivem em regime de monogamia, mesmo assim temporariamente – afirma Wilhelm Reich, que a mesma autora cita, acrescentando que a família não é um fenômeno natural, mas uma instituição social.

- Seqüências Indeléveis de Filmes Clássicos:
1 – Janet Leigh na seqüência de sua fuga dirigindo o automóvel na longa rodovia depois de ter roubado o dinheiro da empresa em que trabalhava. Seus olhos atentos e assustados, ah, seus olhos brilhantes...! O filme é PSICOSE, de Alfred Hitchcock, de 1960.
2 – A sofreguidão de Dóris Day cantando “Que Será, Será”, do mesmo Hitchcock, de 1956. A lidima conexão da voz e da imagem, exprimindo e transferindo a carga emocional. Algo sublime.
3 – A aprazível magresa e o traseiro elegante, empinado, de Lauren Bacall, em Uma Aventura na Martinica”, de Howard Hawks, de 1943. O ambiente dramático de repente se torna lírico.
4 – A figura um tanto mirrada e temerosa de Mia Farrow, engrandecendo-se no papel da esposa sofrida, transcendendo-se na gravidez, mostrando as verdadeiras jóias humanas de seus inefáveis seios, momentaneamente grávidos. Filme de Roman Polanski. de 1968.
5 – A paixão enrustida e sofregamente vivenciada pro Ingrid Bergman no filme “Casablanca”, de Michael Curtiz, de 1942. Os líricos trinados de lembranças inesquecíveis apesar dos tórridos momentos da Segunda Grande Guerra. Uma elegia digna de Rainer Maria Rilke.
6 – A sensualidade natural da vida contrapondo-se à temeridade da morte. A poesia do epicédio de Ingmar Bergman derramando-se na noturna mansão das quatro belíssimas mulheres: Liv Ullman, Ingrid Thulin, Kari Sylwan e Harriet Andersson – todas musas familiares de Bergman. Filme antológico de 1972.


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