terça-feira, março 29, 2011

EM CADA LIVRO A VIDA SE ABRE – I.

Compilação de Lázaro Barreto e agradecimentos aos filhos Paulo Henrique e Ana Paula, que presentearam-me com os livros citados, no Natal de 2010.

- “A literatura filosófica do mundo pode servir tanto para confirmar como para pôr em crise o que já sabemos...; Tudo depende de como o escritor penetra por baixo da crosta das coisas. Joyce projetava numa praia esquálida as perguntas teológicas e ontológicas que aprendera na escola, distantes das preocupações atuais, mas tudo o que tocava: sapatos arrebentados, ovas de peixes, seixos rolados, aparecia perturbado até sua última essência”. (Ítalo Calvino, página 184 do livro ASSUNTO ENCERRADO, Cia. das Letras, SP, 2009.

- “Como será ser avô? Como pai não foi muito bem-sucedido, apesar de ter tentado com mais afinco que a maioria. Como avô provavelmente ficará abaixo da média também. Faltam-lhe as virtudes dos velhos: serenidade, gentileza, paciência. Mas talvez essas virtudes venham quando outras virtudes se vão: a virtude da paixão, por exemplo. Tem de dar uma olhada em Victor Hugo de novo, o poeta-avô. Talvez possa aprender alguma coisa”. (J.M.Coetzee, página 244 do romance DESONRA, Cia. das Letras, SP 2000).

- “O seu corpo numa ilha descoberta pelo sedento náufrago. Sem a marca na areia de pé estranho – rósea e perfumada. Golfo e promontório. Baia e península....Na límpida fonte nadam hipocampo e lambari de rabo dourado. Búzio com cantiquinho de corruíra madrugadora. Passagem secreta para gruta encantada. Dunas calipígias movediças. Ninho escondido de beija-flores. Em vôo rasante garça-azul de bico sanguíneo”. (Dalton Trevisan, página 19 do livro O MANÍACO DO OLHO VERDE, Edit. Record, RJ, 2008).

- “Na solidão da escuridão, quase consegui sentir a finitude da vida e sua preciosidade. Não damos valor, mas ela é frágil, precária, capaz de terminar a qualquer momento, sem aviso. Lembrei-me do que deveria ser óbvio, mas nem sempre é: que cada dia, cada hora e cada minuto merecem ser apreciados”. (John Grogan, página 239 do livro MARLEY & EU – Ediouro Publicações, SP, 2006).

- “Meu pai e minha mãe, por sua vez, não conseguiam sequer discutir a temperatura sem se lançarem numa série de acusações mútuas, que quase se faziam atirar-se às carótidas um do outro.... Só sei que, enquanto dirigia por aquela noite de outono, tinha a impressão de que, em algum lugar, Freud, Sófocles e Eugene O’Neil deviam estar morrendo de rir”. (Woody Allen, páginas 14 e 15 do livro QUE LOUCURA!, L&PM Pocket, Porto Alegre, 2010).

- “Não podemos conceber nada mais pernicioso para uma criança do que uma consciência prematura da seriedade da vida.... Com certeza, não há nenhum escritor vivo que tenha realizado o feito que o senhor James realiza aqui, analisando e purificando as paixões mais vis de nossa natureza ao fazê-las passar pela mente pura de uma criancinha”. (Henry James, páginas 14 e 16 do romance PELOS OLHOS DE MAISIE”, Cia. das Letras, SP 2010).

- “O Zequinha desconsidera que o Brasil é o maior canal de escoamento de droga do mundo.... Pecadora e educada, a Dona Juliana (assim pensava Alzira, sua empregada doméstica). Isso era bom, melhor do que ser uma pecadora sem educação. Vaidade era pecado. Fornicar era pecado. Adultério era pecado. Gula era pecado. Alzira já tentara salvar a patroa das garras do demônio. Oferecera-se para trazer o pastor Walmir para uma conversa. Sou católica, respondeu Juliana (a adúltera). Alzira entendeu muito bem o significado daquele tipo de resposta. Não estou nem aí com Deus, era isso, o catolicismo”.... Miltão levou Bidezinho para a parte alta da favela. Sentaram no mirante e observaram a cidade, o Cristo iluminado. Fumaram um baseado, riram e falaram bobagens, e, depois de tudo isso, Milton explodiu a cabeça do Bidezinho com uma submetralhadora Uzi”. (Patricia Melo, páginas 169 e 248 do romance INFERNO, Cia. das Letras, SP, 2000.

Ver continuação em “Em Cada Livro a Vida se Abre II).