terça-feira, março 29, 2011

EM CADA LIVRO A VIDA SE ABRE - II.

(compilação de Lázaro Barreto com os agradecimentos aos filhos Paulo Henrique e Ana Paula, que presentearam-me os livros citados, no Natal de 2010).

- No livro (obra prima) O ESTRANGEIRO, Albert Camus apregoa a indiferença como clima ambiental da existência humana. Tanto faz, tanto fez, como se diz, geralmente. Era um enfastiado, que nada esperava da vida? Sei não. Sei que, animado pela destreza em escrever, é um dos melhores ficcionistas da modernidade internacional. Seu personagem (primeira pessoa da narração) confessa na página 81: “Pensei muitas vezes que se me obrigassem a viver dentro de um tronco seco de árvore, sem outra ocupação além de olhar a flor do céu acima de minha cabeça, eu teria me habituado aos poucos”. Um personagem assim desestimula o leitor em sua leitura comum? Não. Não mesmo. Em Camus a apatia é repleta de vivacidade. (Editora Record, RJ-SP, 2007).

- “A vida em escritório é uma conspiração erótica. Todas as pessoas que trabalham em escritórios pensam em sexo o tempo todo.... A coisa mais excitante do mundo.... O famoso ator Tony Curtis dissera, quando lhe perguntaram qual era o segredo da eterna juventude. “A saliva das garotas”, ele respondeu.... (Diante do catálogo de uma agência de modelos femininos, o autor monologa: “Uma garota bonita não pode mais ser, simplesmente, uma garota bonita, pois tal qualidade deve ser um trabalho de uma ambição”....(John Lanchester, páginas 12, 24, 52, 238 do romance MR. PHILLIPS, Editora Best Seller, SP, 2003).

- “O marinheiro é errante, mas também sedentário. Tem o espírito caseiro e carrega consigo a casa – o navio; e também sua terra – o mar.... De vez em quando a voz das ondas era um autêntico prazer, como a fala de um irmão. Tinha algo de genuíno, uma razão, um sentido.... Enormes moscas zumbiam medonhamente, não picavam, esfaqueavam.... como se acenasse, num desonroso floreio à face da terra banhada pelo sol do anoitecer, para a morte à espreita na selva, ao demônio oculto, às trevas profundas do coração.... E lá estava ela, seca, murcha, de olhos fechados – uma cabeça que parecia dormir no alto daquela estaca, tendo nos lábios secos e contraídos, uma fileira de dentes brancos também sorrindo, no meio daquele sono sem fim... Se algum dia alguém já lutou com uma alma, esse alguém sou eu....Para pagar meus pecados. (Joseph Conrad, no romance CORAÇÃO DAS TREVAS, páginas 15, 37, 62, 104 e 118 – Editora Nova Alexandria, SP 2001).

“Detesto ter que dar esta notícia à tribo,... mas a verdade nua e crua é que a Web, a Internet, faz apenas uma coisa. Acelera a obtenção e a disseminação de informações, eliminando parcialmente tarefas como ir até à caixa postal, visitar uma livraria, telefonar e reunir amigos para jogar conversa fora. Isso a internet faz, e só isso. Todo o resto é digbesteira.... O neuro-cientista Edward O. Wilson afirmava em seu livro “Sociobiologia: A Nova Síntese”, “que o homem, e todas as obras do homem, eram produtos de padrões profundos que percorriam toda a história da evolução, desde as formigas milimétricas à espécie do Homo Sapiens”... Todo cérebro humano, disse ele, nasce não como uma lousa em branco à espera de ser preenchida pela experiência, mas como “um negativo exposto à espera de ser mergulhado no fluido da revelação”. O negativo poderia ser bem ou mal revelado, mas só se conseguiria ver o que já estava no negativo ao nascimento. (Tom Wolfe, páginas 92 e 97 do livro FICAR OU NÃO FICAR, Editora Rocco, RJ, 2001.

- “Quando os homens me tocavam, eu não ficava tão excitada... era sempre um desapontamento. Mas sei que há outras mulheres que não são assim. – eu me sinto humilhada – disse uma ruiva. Acho que meu corpo não é meu, que não tem mais qualquer valor, sendo assim visto por todo mundo” (Anais Nin, página 71 do livro “PEQUENOS PÁSSAROS”, L&PM Pocket, Porto Alegre, 2010).

- “As coisas que a literatura pode buscar e ensinar são poucas, mas insubstituíveis: a maneira de olhar o próximo e a si próprio, de relacionar fatos pessoais e fatos gerais, de atribuir valor a pequenas coisas ou a grandes, de considerar os próprios limites e vícios e os dos outros, de encontrar as proporções da vida e o lugar do amor nela, e sua força e seu ritmo, e o lugar da morte, o modo de pensar ou de não pensar nela; a literatura pode ensinar a dureza, a piedade, a tristeza, a ironia, o humor e muitas outras coisas assim necessárias e difíceis. O resto, que se vá aprender em algum outro lugar, da ciência, da história, da vida, como nós todos temos de ir aprender continuamente” (Ítalo Calvino, contracapa do livro ASSUNTO ENCERRADO – Discursos Sobre Literatura e Sociedade - Cia das Letras – SP. 2002).